Terça-feira, 17 de Agosto de 2021

ADEUS

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Não acendas a luz. Não é que queira dormir, não quero, mas não acendas a luz nem me toques quando te deitares, apetece-me a sensação de estar sozinho, de olhos abertos no escuro, sem pensar em nada, a ouvir o silêncio, a esquecer-me do silêncio, a ouvi-lo de novo e, no fundo do silêncio, uma voz que não sei a quem pertence e me chama. Ou não é a mim que chama, não chama por ninguém, existe apenas. Não percebo que idioma fala, julgo que não se me dirige, murmura somente, interrompe-se, recomeça. Não a entendo, não me interessa entendê-la, dou por ela e pronto. Hoje fui visitar a minha mãe ao hospital. Tão pequena, tão magra, quase nem um relevozinho nos lençóis. Fez-me festas na mão. Depois vim-me embora. Era a única pessoa no elevador. A seguir um átrio enorme, vazio, com uma empregada longíssimo, atrás de um balcão. Poltronas. Um ou outro letreiro cheio de setas. Um pátio com meia dúzia de automóveis de médicos, os carros dos doentes não podem entrar. Uma ambulância de aspecto abandonado e lanterna apagada no tejadilho. Ruazinhas. Em qual delas deixei a porcaria do Volvo? Ninguém nas ruazinhas, é domingo, excepto um cão além, a coxear. A minha mãe lá em cima, confundindo as coisas. Não se lembra dos nomes dos filhos. Informo-a
– Sou o António
que ela repete, num eco vazio
– O António.
Pergunto-lhe
– Quais são os nomes dos meus irmãos?
Faz um esforço para se recordar, desiste:
– Não sei
sem interromper as festinhas, brandas, lentas:
– O António
e, depois
– Pai
porque o pai dela António igualmente, um homem silencioso de que me recordo mal. A ideia de um sorriso vago, o jornal lido na varanda, que chegava no comboio do meio-dia. Via-se do alto da casa a atravessar os campos numa respiração custosa, e eu com uma caixa de fósforos, com joaninhas dentro, no bolso dos calções. Castanheiros, granito, a garagem inundada por bicicletas velhas. A minha mãe
– O António
dava-nos banho numa selha, com um balde de água aquecido no fogão. Isto antes do jantar, que comíamos de pijama. O meu avô a mastigar calado, um dos meus tios a rir-se. Qual deles?
– Quem era o tio que ria, mãe?
e ela, na cama do hospital, ou antes, da clínica
– Não sei
a alisar os dedos nos meus, sem descanso
– Não sei
nem sequer perplexa, nem sequer aflita, num vagar monótono
– Não sei
a beber por um tubinho, a procurar-me, sem me encontrar, com os olhos cegos, o que é feito do seu corpo, senhora, nem um relevozinho no lençol, sabia, enquanto o comboio do jornal passa em baixo, enquanto a água quente arrefece na selha, enquanto alguém dá à bomba junto ao poço, enquanto a vejo dançar o charleston na cozinha, a gente pedia
– Dance um bocadinho de charleston, mãe
você dançava e, à medida que dançava, ia-se afastando de mim, deitada no hospital, na clínica sem ninguém no átrio, sem ninguém na rua
(é domingo)
excepto um cão manco, um cão manco, um cão manco, um cão, parecido comigo, que se afasta como eu, um cão que, se o chamasse
– António
talvez olhasse para trás antes de continuar a ir-se embora sem procurar o Volvo, de focinho, rente às pedras, a cheirar o passado que, de certeza, não encontra
– Quem roubou as minhas joaninhas?
que, de certeza, encontra mas onde que o não distingo, se ao menos a minha voz
– Chega aqui, cão
e não chega, perdi-o, estou tão longe agora, mãe, tão longe, começo a descer uma travessa para o rio, não oiço nenhum
– António
que me faça parar, nenhum
– António
que me faça voltar atrás, nenhum
– António
que me espere, nenhuma mão na minha, nenhuma mão na minha cabeça, no meu lombo, na minha cauda, não a oiço, mãe, debruçada para a selha
– Deixa-me tirar-te o sabão das costas
porque não me rala o sabão, não me rala o comboio do jornal, não me ralam os castanheiros, não me rala não haver nenhum adeus, rala-me apenas a ideia de acenderes a luz e eu ao teu lado sem pensar em nada, a ouvir o silêncio e a dar-me conta de uma mulher nova a dançar o charleston na cozinha, sorrindo para um sujeito que não sou eu, que não conheço, que detestaria conhecer, colocando-se à minha frente, impedindo-me de alcançá-la, para dançar consigo.

António Lobo Antunes -20.01.2014 às 10h32 (Visão)
escrito no papiro por ACCB às 22:17
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