Quarta-feira, 21 de Junho de 2023

LER...é o quê?

 
 

Neste exato instante em que seus olhos passam por estas linhas, está ocorrendo um pequeno milagre da tecnologia. Não, não estou falando do computador nem da transmissão de dados pela internet, mas da boa e velha leitura, inventada pela primeira vez cerca de 5.500 anos atrás.

 

Para nós, leitores experimentados, ela parece a coisa mais natural do mundo, mas isso não passa de uma ilusão. Ler não apenas não é natural como ainda envolve cooptar uma complexa rede de processos neurológicos que surgiram para outras finalidades.

 

Acho que dá até para argumentar que a escrita é a mais fundamental criação da humanidade. Ela nos permitiu ampliar nossa memória para horizontes antes inimagináveis. Não fosse por ela, jamais teríamos atingido os níveis de acúmulo, transmissão e integração de conhecimento que logramos obter. Nosso modo de vida provavelmente não diferiria muito daquele experimentado por nossos ancestrais do Neolítico.

 

A importância da leitura e a relativa clandestinidade neurológica em que ela ocorre justificam um exame mais acurado. E, neste caso, um dos melhores guias é o matemático e neurocientista francês Stanislas Dehaene, autor de "Os Neurônios da Leitura", que ganhou este ano uma edição brasileira.

 

Dehaene começa sua obra descrevendo o que chama de paradoxo da leitura. Está mais do que claro que nosso cérebro não passaram por um processo de seleção natural que os habilitasse a ler. A primeira escrita, vale lembrar, tem poucos milhares de anos, tempo insuficiente para que tenha deixado marcas mais profundas em nossos genes.

 

Apesar disso, quando enfiamos seres humanos em máquinas de ressonância magnética funcional que escrutinam seu cérebro enquanto leem um texto, verificamos que existem mecanismos corticais bastante especializados nessa atividade. São mais ou menos as mesmas áreas do cérebro que se iluminam em cada fase do processo, independentemente de quem leia o texto e de qual seja o sistema de escrita utilizado.

 

A conclusão é que, de alguma forma, conseguimos adaptar nosso cérebro de primatas para lidar com a escrita. Para Dehaene, operou aqui o fenômeno da reciclagem neuronal, pelo qual processos que surgiram para outras funções foram recrutados para a leitura. A coisa funcionou tão bem que nos tornamos capazes de ler com proficiência e rapidez, obtendo a façanha de absorver a linguagem através da visão, algo para o que nosso corpose mente não foram desenhados.

Antes de continuar, é preciso qualificar um pouco melhor esse "funcionou tão bem". É claro que funcionou, tanto que me comunico agora com você, leitor, através desse código especial. Mas, se você puxar pela memória, vai se lembrar de que teve de aprender a ler, um processo que, na maioria esmagadora dos casos, exigiu instrução formal e vários anos de treinamento até atingir a presente eficiência.

Enquanto a aquisição da linguagem oral ocorre, esta sim, naturalmente e sem esforço (basta jogar uma criança pequena numa comunidade linguística qualquer que ela "ganha" o idioma), a escrita/leitura precisa ser ensinada e praticada.

 

Estudos de neuroimagem conduzidos por Dehaene mostram que existe uma área na região occipitotemporal ventral do hemisfério esquerdo que se especializou em identificar caracteres da escrita, sejam eles alfabéticos ou ideográficos, como no caso do chinês. O neurocientista a batizou de "caixa de letras".

 

A partir daí as coisas só se complicam. O impulso visual é trabalhado por diversas populações de neurônios de forma paralela, ganhando cada vez mais invariância. Nós provavelmente percebemos as palavras a partir de pares de letras, percebidos por neurônios especializados que "gritam" à medida que são ativados. É literalmente um pandemônio neuronal.

 

Outras regiões do cérebro também entram na jogada. Enquanto o pandemônio ocorre, áreas ligadas ao processamento fonológico, ao córtex auditivo e motor, além, é claro, da cognição, que dá sentido aos signos, também são acionadas. Ler é integrar tudo isso através da criação de novas sinapses, que brotam criando avenidas entre as áreas relevantes do cérebro. Não é uma surpresa que exija bastante treino.

O esforço, porém, compensa. Adultos experientes utilizam ao mesmo tempo duas vias de leitura, a fonológica, que se guia pelos sons, e a léxica, que vai diretamente das letras para o sentido.

Já com crianças a coisa é um pouco diferente. De um modo geral, a neurociência ainda não é uma ciência madura o bastante para que dela possamos extrair prescrições para a vida prática. Os meios pelos quais os dados são obtidos ainda são muito grosseiros e a grande variabilidade individual sabota os esforços generalizantes. Mas o que já foi descoberto sobre a leitura é suficiente para afirmar com pouca margem a dúvidas que qualquer bom método de alfabetização precisa ensinar explicitamente o código fonológico. É só quando a criança o compreende e o domina que consegue ler, primeiro pela via sonora e, mais tarde, após gerar muitas sinapses, também pela léxica. É só aí que temos a impressão de ler "naturalmente".

 

Embora estejamos apenas tateando no conhecimento dos processos neurológicos envolvidos na leitura, Dehaene já expõe uma impressionante quantidade de dados e, melhor, uma teoria coerente para explicá-los. Provavelmente, muita coisa ainda vai mudar, mas o que temos já dá margem para "insights" valiosos, tanto para aperfeiçoar nossos métodos de alfabetização e tratamento de dislexias, como para especular sobre a natureza humana.

 

Aprender a ler modifica nosso cérebro. Gerar novas sinapses que integram áreas do cérebro que, no mundo pré-histórico, provavelmente quase não se falavam. Nós começamos desenvolvendo sistemas de escrita que se adaptavam a nosso cérebro, mas, uma vez que a mágica da leitura se disseminou, ela deixou suas marcas em nossas mentes. E marcas bastante profundas. Vários estudos mostram que o cérebro de pessoas que sabem ler funciona de forma diferente do de analfabetos. Especialmente a memória ganha muito com a alfabetização.

 

Embora a turma que cultue a decadência dos tempos não o admita, ao longo das últimas décadas, a inteligência média da humanidade, medida em termos de QI, aumentou bastante. É o chamado Efeito Flynn, que já foi testado e confirmado em 30 países. Se um humano mediano da década de 1910 (que, por definição tinha um QI de 100) fosse trazido para os dias de hoje, sua pontuação seria de apenas 70, no limite do retardo mental. Como os testes de QI são calibrados para que a mediana seja sempre 100, esses ganhos históricos não ficam tão evidentes.Uma possibilidade, totalmente especulativa e que avanço por minha conta e risco, é que a alfabetização em massa, que teve lugar no século 20, pode fazer parte do "blend" que está deixando os seres humanos mais espertos. Seria interessante uma análise estatística que procurasse elucidar esse mistério.

 

De toda maneira, mesmo que a leitura não tenha nos tornado mais inteligentes, é inegável que ela, através das ciências, imprimiu muito mais eficácia às nossas sociedades e, ao mesmo tempo, multiplicou nossas possibilidades de flertar com a transcendência, na forma de filosofia, poesia etc. Mais ainda, ela cria verdadeiras passagens intergeracionais, que integram a humanidade. É a escrita, como diz Dehaene, que nos permite conversar com os mortos com os nossos olhos.

 

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Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos e às quintas no site da .

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escrito no papiro por ACCB às 23:27
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Sábado, 17 de Junho de 2023

a imagem e a ideia

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Há dias a propósito de uma partilha do José Francisco, de um pensamento budista: "Quando sua determinação muda, tudo o mais começa a mover se em direção ao seu desejo".
 
Respondi-lhe :
Tudo é como dançar. Ninguém dança bem com os pés presos ao chão, nem em movimentos acabados. Mal poisam voltam a levantar para novo salto, nova figura, novo estilo. Nem chegam a poisar verdadeiramente, apenas tocam levemente, em novo impulso sem que o passo se chegue a concretizar. Cada passo vale pela preparação do seguinte. Ainda antes de ser alguma coisa, é já outra coisa qualquer.
Na altura faltou-me encontar a imagem que ilustrasse a ideia. Esta, hoje, pareceu-me bem.
 
 
(Texto Surripiado do mural da Filomena Lima )
escrito no papiro por ACCB às 19:09
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Sexta-feira, 16 de Junho de 2023

A vocação da natureza:

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Tudo começou com o medo de que estivesse deprimida.
E estar deprimida era não aceitar o que os outros achavam normal , era ser diferente e reagir de outra forma, ter olhos diferentes e leituras diferentes, diferenciadas,... mil e uma possíveis mas todas possíveis.
 
Nome completo, idade, profissão, razão...
Razão? A minha a dos outros,... razões. razão? Não sei. Uma sensação de diferença.
 
Vai tomar notas?
Que a traz cá?
 
Vai tomar notas? Não vale a pena. No fim, tudo lhe parecerá um rascunho e precisará de reler e reler. Não vai entender nada. Sei bem que não percebe nada de mim. Pois se nem eu percebo.
 
Não me venha com enquadramentos feitos...olhe não vale a pena, não tome notas:
Vou pagar-lhe as notas que vai tomar e nem à colher todos os dias, uma de manhã e outra ao deitar, o vão ajudar a perceber o que nem eu percebo:
O Sr Doutor sabe definir loucura? E diferença?
E já pensou o que será a imaginação?
Se eu pedisse ao senhor doutor que desenhasse a imaginação que desenhava?
A mentira ou um pássaro? Pois é aí que está a diferença ....
Quando as crianças imaginam dizem que elas mentem.
Se for um poeta,... são pássaros.
Quando um adulto mente não é pássaro nem imaginação,... é mentira.
Eu pago a consulta ao sair, mas não tome notas nem às colheres... uma de manhã e outra à noite.

ACCB
escrito no papiro por ACCB às 19:04
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Quarta-feira, 14 de Junho de 2023

Os textos

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É assim que se cosem os textos pela tarde quente de trovoada
 
É a quebra dos sentidos e a mistura das ideias
 
O passar pelo sono numa fração de segundos e pensar que se está noutra dimensão, quem sabe de uma outra vida, tudo misturado, mais leve e mais criativo
 
Quando abres de repente os olhos num súbito sobressalto, ainda estás sentada na secretária mas nada tem que ver com o que te passava pelos olhos enquanto, numa fração de segundos, mergulhavas noutro espaço....
 
É isto que nos fazem as tardes quentes à espera de trovoada, com feriado lá fora e trabalho aqui dentro.
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 19:07
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Terça-feira, 13 de Junho de 2023

As datas

 
 
 

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Apercebi-me de repente que perdi o hábito de pôr a data nos textos
 
que escrevinho em papéis soltos ou num assomo súbito de ideias que me parecem boas ou profundas, ou poéticas.
 
 
É um erro. Todo o texto e toda a palavra têm um contexto único de que fazem parte o local, a hora , o dia em que nasceram.
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 18:25
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Sábado, 3 de Junho de 2023

Paraíso..............

HOTEL HACIENDA

 

 

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Quinta-feira, 1 de Junho de 2023

Rimas por aí

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Há a magia do não saber

 O sobressalto do intuir

E depois há o querer perceber

O não arranjar maneira de o conseguir

 Quebra-se a magia até que tudo seja claridade

 Uma pura e ofuscante verdade

 Quem nunca?

 

ACCB

 

escrito no papiro por ACCB às 16:32
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Quinta-feira, 25 de Maio de 2023

Tempo de Bifurcação

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  • Qualquer caminho é apenas um caminho, 
  • e não há ofensa para si ou para outros em abandoná-lo se é
  • isto que o seu coração diz a você…
  • Olhe para cada caminho, bem de perto, estudando-o
  • cuidadosamente. Experimente-o quantas vezes você
  • achar necessário. Então pergunte a você mesmo, e
  • somente a você mesmo uma questão …Esse
  • Caminho tem um coração?
  • Se ele tem, é um bom caminho; se não tem, é inútil.
  • (D. Juan, “brujo” Yaqui, orientador de Carlos Castaneda)
  • ___________________

 

Há um tempo de bifurcação em todas as vidas

 

 Não para retroceder mas para decidir como ou para onde avançar

 

 E  estou certa que na parte final da nossa caminhada há uma parte dela que não sabemos como vai ser, mas até podemos intuir as várias formas de o ser, e temos de optar pela vereda mais "praserosa", mais florida, com mais sorrisos com mais livros, e mais música, e mais arte,  com mais amigos e mãos dadas, mais viagens para fazer na descoberta do Todo e do Tudo.

 

 A sensação é a de que não se fizeram todos os caminhos e de que, o que mais se caminhou não vai ficar completo.

Abandonamos o percurso  antes do final porque já nada conseguimos terminar ou, já nada queremos ver

que nos mostre o fundo da rua da Vida

 

Há um tempo de bifurcação em todas as vidas,...

eu escolho a que tem mais Sol e mais descoberda e portanto, a que terá mais desconhecido.

 

ACCB

__________


escrito no papiro por ACCB às 12:02
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Quarta-feira, 24 de Maio de 2023

As pessoas ...

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Há uma nostalgia nas "pessoas antigas" que nos faz parar entre o que somos e o espaço de imaginar como seremos.
Há nas palavras que nos dizem um percurso feito a sonho realizado ou perdido,.... vá-se lá saber porque filosofia estranha.
Há as que acreditam que podem e realizam, as que realizam e as que genericamente acham que a realização não passa de uma ilusão bonita e enganadora, cheia de perguntas sobre de onde viemos, para onde vamos, o que somos....
Todas sonham,...todas querem, todas vivem para perceber o porquê deste percurso ou, vá-se lá saber porquê, apenas para o realizar.
 
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 23:27
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Passei a Fronteira

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Há um espaço de tempo misturado com um espaço de cadeira em que olhamos o teclado e pensamos que já não há forma de continuar.
Então chegamo-nos para trás e lemos 3 vezes as mesmas frases... e há uma dor que se enfia no ombro esquerdo e um peso de cristal de chumbo no olhar que teima em puxar as palpebras para dentro dos olhos...
É aquela hora em que ou passamos a fronteira...ou...vamos dormir.
______
Mergulho os olhos ao fundo, no mar.
Tem arestas de prata e é tão profundo quanto a noite.
Tiro do papel os ultimos acordes de decisões necessárias, trabalhadas a ferro e fogo pela noite dentro.
Não há aragem porque fechei a janela... nem passos.
Há um fio ténue entre o acordar e o escrever.... Passei a fronteira. Escrevo.
 
 
24 Maio de 2022
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 23:25
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Segunda-feira, 22 de Maio de 2023

Os Ombros Suportam o Mundo

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( Ombros de Pedra Vitor Morais)

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade 

escrito no papiro por ACCB às 15:33
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Carta

 

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Carta
 
Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci. Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu caminho, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias:
"Deus te abençoe", e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.
 
 
Carlos Drummond de Andrade
In "Lição de Coisas" 1964
escrito no papiro por ACCB às 15:09
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Segunda-feira, 24 de Abril de 2023

Necrológio dos Desiludidos do Amor

 

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Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.

Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia...

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).

Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.

 

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

escrito no papiro por ACCB às 15:25
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Segunda-feira, 17 de Abril de 2023

Joaquim Pessoa 17 Abril 2023

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Amei Demais

Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
todas as coisas que na vida eu emprenhei.
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais.
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei
está espalhado pelos sítios onde vais
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais.
E os milhares de versos que rasguei
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum' Joaquim Pessoa _ Abril 2023
escrito no papiro por ACCB às 12:57
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Quinta-feira, 16 de Março de 2023

Até eu me estranho

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Cruzo-me comigo por aí
Nas palavras que são minhas
E até eu me estranho
porque me visto umas vezes de mim
outras vezes de mim mesma
 
 
Não há em mim muitas
Porque todos somos muitos
ou mais que um
se nos sentarmos connosco.
Temos em nós quantos sonhos?
E quanto Mundo?
 
 
Cansaço seria sermos só um
Aquele que se levanta todos os dias sem horas
Esta que se deita com pressa de dormir e acordar para devorar o tempo
Cruzo-me por aí comigo
todos os dias
E com os comigos de mim
Como o poeta
E até eu me estranho
 
Bom dia.


ACCB
escrito no papiro por ACCB às 00:02
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Sábado, 4 de Março de 2023

Fotografia

"Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida! "
 
FP

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( foto ACCB) - 15 Dezembro 2022
escrito no papiro por ACCB às 18:49
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Horários tardios

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Só às 3 da manhã apaguei a luz
Era uma paz justissima a que se ouvia na rua, só tocada pelo cantar de um rouxinol que tornava tudo mais inclinado,...a minha ida com o cão à rua e o regresso depois de um curto passeio.
Pensei que nunca saboreava aquele som e o que era estar ouvi-lo, precioso como o do rouxinol da Florbela Espanca. E pensei que chegava a casa e iniciava a escrita de um livro, era agora ou nunca, como se o canto do pássaro no silêncio quieto da noite me dissesse que deveria saborear a minha paz e escrever sobre a guerra
Uma guerra a milhares de kms mas no mesmo planeta, com seres da mesma espécie, sangue nas veias e nas guelras....na guelra,...era na guelra....
 
 
Uma imagem de carnificina veio-me à ideia e o silêncio da noite com pássaro ao fundo chamou-me de novo
Sabia que se não começasse o livro agora, já não o faria Eram sempre assim os meus adiamentos ....
E ficava sempre para depois, como o Antonio que queria ir a Gôa antes de morrer mas morreu, sem dar por isso, ...sentado ...num sábado à noite...com tantos escritos na gaveta ....
 
 
Olhei o relógio
Já devia dormir... dormir com as ideias em sobressalto e as notícias a chegarem no tm, lá de longe do frio ..da morte, ..da coragem...do teatro de marionetes....
Frágeis, todos frágeis , mortos a tiro ou de sono, todos frágeis....um laboratório perfeito rasgado em segundos por estilhaços ... para nada.
 
 
Sabia que fecharia os olhos derrotada pelo cansaço e de repente seria dia...
O pássaro teria ido dormir e eu levantar-me-ía formiguinha incansável com alma de cigarra ...
Já me habituara à rotina que contornava com Dead lines, ....Seca!!!!


ACCB O Livro- 2022
escrito no papiro por ACCB às 18:31
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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2023

O Vestido

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Quadro de Isabel Almeida
 
 
Viu o vestido...sim foi primeiro o vestido. Elegante,...sózinho.... em pernas esguias e saltos altos que trauteavam a calçada. Era noite...uma daquelas noites que caem no início da primavera pelos lados do rio, em que as folhas verdes já despontam na ponta dos ramos.
O decote das costas em V e os cabelos sem rosto avançavam dentro do vestido, ponto vermelho pela escadaria acima até ao fundo da rua.
Meias sem cor e pernas sem meias.... saltos sonoros e braços nus...casaco no braço e mala no ombro...
Apressou o passo,... ainda havia reflexos de verdes pelo pôr do sol...como se pinceladas de ouro caíssem nas folhas...
Era o rosto, o rosto do vestido que precisava ver... A memória teimava em sussurrrar-lhe que só o podia conhecer... que o passo compassado era o do vestido de há anos atrás, naquela noite em que nunca mais a vira...
O passo era solto... devia fazer aqueles degraus todos os dias... A ele, o coração batia-lhe descompassado no peito... e o vestido fugia-lhe ligeiro... verde acima....
Apoiou-se no tronco da árvora que havia séculos ali observava as escadas, as gentes, o trautear dos saltos altos , as pernas sem meias e os vestidos de decotes vermelhos....
Quando olhou o cimo... ela desaparecera... e levara o rosto do vestido com ela...
Mas o coração, já em golfadas pela garganta, dizia-lhe que era o mesmo daquela noite em que nunca mais a vira...uma noite em que tinha dela apenas o lado lunar reflectido no rio.
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 02:08
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2023

Poderia ter escrito

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A ideia chegou de longe, pelas linhas que não são da mão mas dizem coisas.
-Poderias ter escrito este poema, dizia.
Poderia mas não tinha sido eu... Se bem que todos os poemas são iguais... Todos falam de ânsias, de dores, de olhares que se perdem em pormenores e inventam caminhos, todos falam de revoltas e revoluções por fazer.
Os poetas escrevem todos o mesmo, só que com tintas diferentes.
Trocam a ordem das palavras e desatam a criar....
Há na poesia a linguagem universal das almas, tocam-se pelas reticências, descobrem-se entre vírgulas e respiram...
É como sobrevivem às catástrofes que julgam ter sofrido, como se revoltam contra leis que são apenas regras impostas ou como vêem num rosto enrugado histórias de passados tão presentes.
Poderias ter escrito este poema.....
Mas não.... outro o fez por mim e como eu.
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 00:34
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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2023

Sorte

 

 

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escrito no papiro por ACCB às 00:35
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2023

CV

https://fb.watch/iJahjFF8pZ/
 


Pediram-lhe o CV.... mas não sabia o que dizer. Era desde quando? Do dia da data em que passara a ter dias, ou do dia em que passara a ter deveres?
E que deveres? Os da escola? Os de respeito? Os que devia ter desde o dia em que disseram que tinha poder?
E que Poder? O poder só de experiência feito como o Saber? Ou Poder de não querer Poder para coisa nenhuma?
Pediram-lhe o CV, e não sabia o que dizer.
 
É tão constrangedor ter CV, fazer percurso e somar feitos ou desfeitos, uns mais feitos que os desfeitos e, outros, os que seria melhor ter repetido e várias vezes feito, completos e perfeitos.
E o percurso longo e rápido, feito de frente, olhos nos olhos com o antes e o depois, ou o agora e o percurso tão pequeno e tão longo, até agora desde o antes.
 
Disseram-lhe então que o CV era o agora todo, desde antes até aqui.
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 23:42
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Frases

 

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Temos que aceitar que nem sempre tomaremos as melhores decisões,

que vamos errar muito

- perceber que o fracasso não é o contrário de sucesso, já é parte do sucesso.

Arianna Huffington

escrito no papiro por ACCB às 00:24
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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2023

Os livros

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Há sempre uma frase escrita que nos encontra distraídos, ou uma frase escrita que nos acerta no meio do peito...

Há sempre uma frase escrita que nos desnuda, que nos descobre até aos nossos próprios olhos,... uma frase que nos espelha ou que nos conforta... que sentimos que poderíamos ter escrito... mas não escrevemos... mas se escrevêssemos era exactamente assim que o faríamos... É por isso que uns escritores existem em nós e outros nem os abrimos.

Há sempre aquela frase em que nos detemos... e relemos... depois partimos para longe porque já vivemos aquilo ou , nem que seja em sonho, já o ambicionámos.

Há sempre o cheiro de um livro com gente dentro, momentos e tempos que são nossos ou já passaram por nós...
E há aquela sensação imensa de um todo que existe em nós, vindo não sei de onde nem de quando...
Como se fossemos muitas pessoas ao mesmo tempo, com muitas crenças e vivências e sem umas as outras não pudessem ser...

A literatura é isso mesmo, o saber de nós sem nós sabermos.

ACCB
 
 
 
escrito no papiro por ACCB às 12:15
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2023

O fotógrafo

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Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros 

 

escrito no papiro por ACCB às 00:06
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Sábado, 4 de Fevereiro de 2023

Tratado geral das grandezas do ínfimo

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A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros

escrito no papiro por ACCB às 00:00
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2023

Sonhos

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escrito no papiro por ACCB às 00:32
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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2023

Poema Em Linha Reta

 

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( Foto ACCB)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

...

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

...

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

...

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

(...)

 

FP

 

 

escrito no papiro por ACCB às 16:18
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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2023

NOTA AO ACASO

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O poeta superior diz o que efectivamente sente.
O poeta médio diz o que decide sentir.
O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.
Nada disto tem que ver com a sinceridade.
Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente: é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões.
A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que não sente é com qualquer espécie ou grau de sinceridade intelectual, e essa é que importa no poeta.
Tanto assim é que não creio que haja, em toda a já longa história da Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas, que disessem o que verdadeiramente, e não só efectivamente, sentiam.
Há alguns, muito grandes, que nunca o disseram, que foram sempre incapazes de o dizer.
Quando muito há, em certos poetas, momentos em que dizem o que sentem.
Aqui e ali o disse Wordsworth. Uma ou duas vezes o disse Coleridge: pois a Rima do Velho Nauta e Kubla Khan são mais sinceros que todo o Milton, direi mesmo que todo o Shakespeare.
Há apenas uma reserva com respeito a Shakespeare: é que Shakespeare era essencial e estruturalmente factício; e por isso a sua constante insinceridade chega a ser uma constante sinceridade, de onde a sua grandeza.
Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos.
Pode ser sincero na emoção: que importa, se o não é na poesia?
Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram.
Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca.
Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas — tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas.
Mas não: usou o soneto em decassílabos como usaria luto na vida.
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo.


Álvaro de Campos
________________________
escrito no papiro por ACCB às 18:28
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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2023

Ter Tempo

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É um traço, apenas um risco de lápis
Talvez umas palavras, talvez umas letras apenas
Era bom que fossem frases que fossem pensamentos
Ideias ou vontades
Em lápis de carvão
É tão tarde, estou cansada e não tenho sono
Ou tenho e já nem dou por isso
O que mais me mói é que institucionalizaram horas para tudo
E de dia, de dia é mesmo preciso estar acordada…
Regras, ordens, rituais, respostas….prazos, riscos …
A lápis de combustão lenta
Ao menos que haja sol amanhã
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 18:31
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Domingo, 11 de Dezembro de 2022

Textos estranhíssimos

Quando sonho com estas coisas dos papéis presos em capas de cores ( ridiculo!), tudo é sempre estranhíssimo.
Movem-se os figurantes como marionetas e sobem e descem escadas com ar sério e muito atarefado como se o fim da guerra, da fome e das doenças dependesse disso.
 
E há sempre juristas muito doutos que encostam a testa nas mãos, mordiscam os aros dos óculos de tartaruga ( a qualidade dos aros, não o animal com óculos), dissertam sobre figuras estranhíssimas também e os efeitos dessas figuras, e enchem-se de vento, e respiram fundo, e sentem-se como se tivessem acabado de salvar
o mundo naquele momento porque não cortaram o fio errado.
 
Não sei porque tenho sonhos estranhíssimos.
Os sonhos não deviam ser estranhíssimos,... nem os recursos, nem os juristas, nem as reflexões sobre tais insignificâncias...
Texto estranhíssimo este.
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 11:54
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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2022

Aves e Palavras

 
 
 

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Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,
essas palavras que não ficam arrumadas com decência
na literatura,
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras.
 
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo
como se tivesse nascido o dia e uma brisa
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.
Quando volto para casa o teu nome vai comigo
e ao mesmo tempo espera-me já
numa casa construída com dois nomes,
como se tivesse duas frentes,
uma para a montanha e outra para o mar.
 
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,
espreito então pelas janelas de onde
se vêem coisas que nunca antes tinha visto,
coisas que adivinhava mas que não sabia,
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,
e os meus olhos são justamente a pronúncia do
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,
um som pequeno como um roçagar de asas
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala
e criam raízes fundas nas palavras vulgares
que os vulgares amantes engrandecem
quando falam de amor.


JOAQUIM PESSOA, in GUARDAR O FOGO (Edições Esgotadas, 2013)
 
 
escrito no papiro por ACCB às 11:58
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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2022

Farias 98 no dia da morte de Pessoa

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30.11. - memórias de aniversário que farias se fosses vivo
A vida não te quis envelhecido
Só com a força de tudo e para tudo
Seriam 96 este ano
"Só Deus tem os que mais ama"
Coisas que inventamos para nos consolarmos...
Seriam 96.......que seria da tua sempre pronta rebeldia? Como encararias hoje os limites impostos? Que farias se te ditassem regras incoerentes....e das faltas de lógica,... que dirias?
Às vezes fazes-me falta mas, como digo ( se calhar também para me consolar), continuas vivo porque há na genética e na biologia um permanecer eterno e renovado que se multiplica sem pedir licença....
ACCB
____________
*
estou cansado da inteligência.
*
Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára. meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
18-6-1930
*
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
escrito no papiro por ACCB às 21:57
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30 Novembro

Eu lia os livros de ficção científica lá em casa com 12 e 13 anos e pensava que esse futuro devia ser de outro planeta, nunca daqui.
 
Eu observava as imagens tiradas de uma qualquer imaginação muito à frente ou muito diferente e pensava que tudo isso era coisa de outro planeta.
 
Mais tarde lia o Admirável Mundo Novo e imaginava gente formatada e destinada por plataformas e capacidades....
E hoje eu penso que, se o meu código genético é decifrável, se nos laboratórios os cientistas estão a transformar a ficção científica em realidade, então, .... todas as experiências, esperanças, sonhos, visões, sensações que modelam a imaginação humana podem ser apenas um código decifrável....
 
E aí, não havendo limite à biotecnologia, à manipulação da genética... então... mais tarde ou mais cedo será neste planeta que uma máquina me irá descodificar....... isso quererá dizer que...a clonagem do Admirável Mundo Novo está à porta mas não com aquela fórmula... com outra, mais robótica...
 
Provavelmente um admirável mundo novo não virado só para o ser humano mas para outros seres.....
Porque a biotecnologia pode criar tudo.
Sera que pode resuscitar os que já partiram??
 
 
ACCB
 
 
escrito no papiro por ACCB às 21:45
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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2022

Mundialmente falando

Pensando de repente, eu acho que os poetas têm daqueles súbitos momentos de necessidade de entrar dentro da poesia e ficar lá dentro, trancados, em silêncio, à espera de reflexão ou solução para o afastamento do que acontece à volta mas em choque com o que acontece à volta.
 
Assim como quem se fecha num quarto escuro ou num jardim de inverno e, ao fim de uns minutos, começa a ver todos os recortes, os mais pormenorizados, e a ouvir todos os sons que são inaudíveis com luz e, adormece inebriado, como que desfalecido, de tantos aromas do jardim de inverno transparente porque o poeta vê lá para fora mas, ninguém vê lá para dentro.
 
E os sons podem ser de tudo e de nada, de uma voz doce em leituras calmas, com sotaque ou em castelhano, um apelo a pegar na escrita e criar um Mundo à volta, ainda dentro do jardim de inverno transparente.
 
Lá fora os dias passam súbitos, de dia, nas corridas das horas de trabalho ou de tédio e, à noite, nas luzes rápidas das cidades repetitivas e festivas se for Natal.
 
Dizem que jogam um Mundial num país que se fechou dentro de si mas cujo o poder económico quebrou as janelas dos jardins de Inverno,... dizem que não se vê nada lá para fora mesmo depois dos vidros quebrados e os sons não têm musicalidade...
Mas há gritos de um Mundial, não contra as violações dos Direitos Humanos mas pelos gladiadores que se debatem a troco de milhões.
 
Não, não é um circo, nem um quarto escuro (que esse é o esconderijo dos pensamentos), nem um jardim de inverno inebriado de aromas,... é um Mundial de ilusões e não há chave para solução.
 
ACCB
 

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escrito no papiro por ACCB às 12:22
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Sábado, 19 de Novembro de 2022

NÓS

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Não precisávamos de falar. Como ele dizia
-Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
- Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
- Para onde queres ir quando morreres?
respondi
-Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
- Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
-Tu também.
Novo silêncio.
-Eu quero ser cremado,
e que me ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
- Vou morrer primeiro
que tu. Vou morrer
agora.
Mais silêncio. Eu
- Ganhei-te outra vez.
Ele
-É.
Ele
Ganhamos sempre os
dois
Eu
Porque é que a gente
gosta tanto um do
outro?
Ele silêncio antes de
-Se me voltas a falar
de amor vou-me
embora.
Eu
- Sabes onde é a
porta.
Mas não voltámos a
falar de amor. Para
quê? Estava ali todo.
Depois quis ver os
Iivros
- Para aí vinte mil não?
eu
- Mais ou menos,
incluindo os muitos
que encontrei numa
livraria de segunda
de segunda mão,
assinados por ti.
Silêncio. Eu
- Não podia suportar a
a ideia de que outras pessoas tivessem em casa os livros do meu irmão.
Gesto vago. Depois
ele
- António
E silêncio, depois eu
- João
e silêncio. Ou seja um
diálogo de amor compridíssimo. Depois
Se os pais cá estivessem
e esta frase fez-me compreender melhor a sua imensa dor.
(Cont.)
ANTÓNIO LOBO ANTUNES
No livro : AS CRÓNICAS
[D.QUIXOTE]
 
escrito no papiro por ACCB às 16:04
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2022

CRÓNICA

 
 
´OS POBREZINHOS`
 
"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"

António Lobo Antunes
 

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escrito no papiro por ACCB às 14:50
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2022

DESOBEDIÊNCIA 11.11.22

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Sou feita de muitos
nós
desobediência e meio- dia
Sou aquela que negou
aquilo
que os outros queriam
Disse não à minha sina
de destino preparado
recusei as ordens escusas
preferi a liberdade
e vivo deste meu lado
 
Maria Teresa Horta
 
 ( Aniversário a 20 de Maio) 
 
escrito no papiro por ACCB às 16:45
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Terça-feira, 8 de Novembro de 2022

Equilíbrio

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Não tem nada, nada a não ser o equilíbrio entre o cigarro e os calcanhares
Dizem que escreve poemas quando o vento não se mexe na beira da maré
 
Vai até à beira mar e desafia-o, diz-lhe que nunca o poderá derrubar, nem quando, como em criança, lhe mete medo.
Não tem nada. Deixou crescer o cabelo e a barba. Já não bebe Bourbon mas não perde um conhaque aquecido.
Nos dias em que o vento fica preso no nevoeiro vai até à beira mar e fica ali suspenso, equilibrado entre o cigarro e os calcanhares e desafia o tempo.
 
Diz que procura o equilíbrio eterno,... como quando os outros nos aceitam por nos imaginarem e não por nos conhecerem.
Um dia disse-me que ser equilibrado não é ser equilibrado, é parecer, é corresponder à inclinação da maioria e não cair na tentação de os tentar desequilibrar.
 
Treina aquilo há muitos anos,....é como uma posição de karaté.... não a preparar o ataque mas a observá-lo.
Um dia perguntei-lhe se, algum dia, conseguiria equilibra-me assim como uma ave em contemplação, nos calcanhares com o braço em descanso no joelho e tirar uma longa fumaça roubada ao tempo que me encurta a vida.....
Disse que não sabia......... cada caso era um caso e ele era um caso perdido.
 
Ninguém sabia do seu próprio ponto de equilíbrio que não era de certeza aquele que os outros idealizavam..... Mas talvez com treino...
O segredo, disse ele,... é alhearmo-nos tanto quanto nos concentramos no que se passa em redor, só como observadores, sem nunca intervir, sem nunca chamar atenção...
 
Sem nunca deixar pegadas.... saltar o estado de equilibrio apenas quando a maré pode apagar as marcas........
 
Afastei-me sem o entender. Nunca conseguiria aquela pose de flamingo sem a cabeça debaixo da asa....
 
E então percebi, o eixo do ponto certo era a estrutura interna do abandono das raivas e dos medos, o eixo do ponto de equilíbrio ficava ali mesmo em linha recta dos calcanhares aos ombros completamente abandonados ao nada .... O olhar e o cigarro é que observavam tudo... ele apenas ouvia, escutava ..... num silêncio em equilíbrio com o mar...E todos o achavam ausente mas ele apenas não se envolvia.
Regressei e pedi-lhe um cigarro. Saí dali deixando marcas pela beira mar.... Eu nunca saberia o meu ponto de equilíbrio, cada caso é um caso e, no meu caso, .... era preciso muito treino.
 
ACCB
 
escrito no papiro por ACCB às 07:31
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2022

A Invenção do Amor

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Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e
detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absoIutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher e o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra a afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em circulos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entretanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem e da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resoIvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão,
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)

Daniel Filipe, poeta caboverdiano. Em “A invenção do amor e outros poemas”, de 1961

Daniel Filipe, poeta e jornalista natural de Cabo Verde, nascido em 1925 e falecido em 1964, em Portugal. O poema seguinte foi escrito e publicado durante o governo ditatorial de Salazar. Daniel Filipe foi um preso político, perseguido e torturado.

 

escrito no papiro por ACCB às 20:08
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Domingo, 6 de Novembro de 2022

O Mar dos meus Olhos

 

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( Foto de ACCB)
 
 
Porto, 6 de Novembro 1919
Lisboa, 11 Novembro 1958
 
Cruzaram-se os nossos nomes nos astros e nas letras Muitos anos depois de tudo ter acontecido confundiram-nos o traço.
Almas de mulheres são sempre confundidas e todas trazem o mar nos olhos, como também traz, a minha filha que nasceu no dia do aniversário da tua morte.
 
 
39 anos nos podiam separar, mas não, 39 anos unem as mulheres, porque todo o tempo é tempo de mulheres, e são os poetas que fazem a história, acreditam nas mudanças, forçam as interrogações e arranjam numa nesga de tempo o tempo para ver o Mar.
É sempre o Mar Sophia, o teu o meu, o delas,...o nosso Mar.
 
O Mar une a fixidez das terras, o verde das paisagens, o deserto dos caminhos, o Mar vive nos olhos dos que sonham, dos que resistem, dos que têm fome e sede de infinito, dos que percebem apenas da simplicidade das coisas.
As almas nascem em tempos diferentes mas todas vão desaguar ao Mar ... .
 
 
É o Mar dos Meus olhos, dos teus, dos delas... dos nossos olhos, O mar das mulheres que não desistem ainda que o infinito esteja límpido e vazio, ainda que ninguém o saiba ler, ainda que o soldadinho não volte, ainda que se levante temporal, .... há sempre alguém que resiste e não desiste de ser Mar, e há mulheres que trazem o Mar nos Olhos....
 
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma.
 
ACCBO 
escrito no papiro por ACCB às 23:24
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