Qual o poema dela que gostas mais?
Não sei
Não posso gostar mais só de um poema.
Eu gosto de poemas e quando leio um de que goste, preciso ler outro e outro e outro…E, depois, eu gosto da Natália … porque gosto da escrita dela e dela pela liberdade que respirava e usava como entendia.
Há sempre uma marca do ou da poeta no que escreve… .
Há sempre a alma deles no que escrevem, por isso é que escrevem poesia
Escorrem para o papel e pelo papel, enovelam-se nas pequenas conversas, ou nas grandes, com gente calma, com gente intelectualmente rica, desfiam-se em imaginações incontroláveis…sós ou com audiência ou a sós com o papel e o silêncio
As coisas do Mundo só os prendem se estão apaixonados ou revoltados, ou tristes, ou indiscritívelmente felizes.
Que tinha Natália em si que se afirmou no seu tempo só por si, pela sua opinião, pela escrita e ainda juntou, a tudo isto, um cigarro, provocador e afirmativo?
Talvez porque «a poetização das coisas não é senão o aperfeiçoamento delas. É para isto que se faz poesia e não para com ela se fazer literatura».
Um poema?
No Mundo da escrita, os grandes têm oceanos de palavras.
ACCB
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Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.
Sou o vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
na maquineta dos felizes.
Senhores banqueiros sois a cidade
não há cidade sem o parque
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não verei.
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.
Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
que espalmais em apertos de mão.
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
Correia, Natália (1993). O Sol nas Noites e o Luar nos Dias