Domingo, 19 de Junho de 2022

TOP GUN

 

TOP GUN

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escrito no papiro por ACCB às 18:07
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Sábado, 18 de Junho de 2022

3 de la tarde



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É mesmo penoso! Penoso e pesado. Devia ser Sevilha às 3 da tarde e eu dormia pela certa. Ou Córdoba pelas 15 e um calor daqueles que transforma o ar em gelatina. É igual o peso que tenho nas pálpebras e já tomei dois cafés.
Devia ser Granada às 3 da tarde e iria até Alhambra como uma princesa moura e descalça. Percorreria os jardins, os regatos saltitantes de água fresca e adormeceria num qualquer canto com sons de cigarras.
Teria muitas pedras preciosas entre os dedos e um diadema vindo de África sobre os cabelos... e sonharia com férias, chá quente para refrescar e muito, muito tempo e espaço para ler.
É mesmo penoso....
 
 
(Alguém conhece uma magia para tornar as pálpebras leves?)
 
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 15:04
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Quinta-feira, 16 de Junho de 2022

Tarde de trovoada Feriado lá fora

É assim que se cosem os textos pela tarde quente de trovoada
É a quebra dos sentidos e a mistura das ideias
O passar pelo sono numa fração de segundos e pensar que se está noutra dimensão, quem sabe de uma outra vida, tudo misturado, mais leve e mais criativo
Quando abres de repente os olhos num súbito sobressalto, ainda estás sentada na secretária mas nada tem que ver com o que te passava pelos olhos enquanto, numa fração de segundos, mergulhavas noutro espaço....
É isto que nos fazem as tardes quentes à espera de trovoada, com feriado lá fora e trabalho aqui dentro.
 
ACCB

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Cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

escrito no papiro por ACCB às 15:13
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Engolir o Universo

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O que é isso do Universo? Já acho o Mundo tão grande que não consigo abarcar o que seja o Universo....é como ganhar o euro milhões,... um enorme euro milhões... nunca saberia contar tanto dinheiro.

 

E no entanto, por vezes, sinto-me cheia de cansaços, os todos que há no Mundo, cansaços passados, presentes e o peso dos futuros, como se o Universo se tivesse encostado todo à minha nuca e eu estivesse prestes a desitir da posição de o perceber, olhando atentamente para baixo quando afinal ele está todo por cima e à volta.

 

E se eu fosse mesmo feita de pedações de estrelas?... Juro-vos que acredito que sou. Que fraqueza.... apenas pedacinhos de estrelas, pedacinhos incompletos. E que fazer? Seguir sempre a estrada que o caminho faz-se caminhando, repetindo gestos, ideias, ideias felizes, súbitas mas por isso mesmo felizes... e depois voltar ao razoável, à rotina, ao que tem de ser para além do Universo e num espaço ínfimo nele.

 

E seu eu engolisse o Universo como Cronos , engolia os filhos? Cronos e o Tempo engolem o que geram...

 

 

Mas eu nem gerei o Universo,... só virando-me do avesso e abarcando-o todo como um espaço que aumenta ao virar o direito para dentro e o interior para fora....mas entretanto o tempo já me devorou.

 

 

Ao virar o Direito para dentro... e reparo quantos séculos de humanidade, quantas lutas e quantas perdas, quantas guerras e quantas mortes nesta palavra.

 

Quantos pedacinhos de estrela se estilhaçaram para que a palavra Direito que me levou a esta evasão de contemplar o Universo pudesse existir?

 

Direito não envolve autoridade ou será que envolve? Envolve luta, sangue suor e lágrimas e é por isso que todos querem lutar, ser livre ou morrer por ele. E é por isso que existem as convenções, as cartas de direitos, os diplomas legais....para que tudo não se repita....e repete.

 

Há anos que faço “isto”, há anos que visto a beca, há anos que empunho a espada... e que teria acontecido se eu não tivesse aceite a espada?

 

O Universo continuaria a existir, os movimentos de rotação e traslação da Terra continuariam a existir,... as estrelas planetas e cometas continuariam sobre a minha nuca todas as noites que tento proteger direitos e o Direito.... como é assim e agora e será sempre. Ámen.

 

Será que algum dia aceitei a Espada ou apenas a resgatei e empunhei?

 

Então, engulo o Universo e sigo em frente, como quem engole um sapo, como quem percebe que tudo continuará encostado à nuca, como quem sabe que entre a espada e a parede, escolherá sempre a Espada.

ACCB

 

escrito no papiro por ACCB às 13:21
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A Justiça

 

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"E é inegável a existência do supremo bem que é a independência judicial, formada a Magistratura como um corpo separado, oriundo por escolha de orgão próprio, fora do quadro de qualquer designação política, parlamentar que seja,pois estaria aberta a porta para a contaminação daquela pelos interesses de partido que são, não infrequentemente, expressão de interesses de grupo quando não individuais.
Para ser democrática, a Justiça não tem de ser eleita mas de eleição."
 
 
José Antonio Barreiros - Para além do Bem e do Mal - "Levante-se o Véu!"
escrito no papiro por ACCB às 13:06
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ÀS VEZES É PRECISO

 

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Desce da escrita e vem sentar-te por aqui... Não importa onde... senta-te apenas
Abandona o corpo
É o fim de mais um dia no relógio da noite
Ainda que os teus olhos tenham o mar dentro
deixa que o pôr do sol fique lá atrás na beira da maré
 
 
Sabes?
Às vezes é preciso dormir
descansar o dia cansado que te pesa nos ombros
Às vezes é preciso dormir para não desistir
 
 
Ouve música e senta-te
lê e senta-te
fecha os olhos, senta-te
mas abandona as horas que já passaram...
Amanhã rejuvenesce o dia
é Primavera não tarda
Às vezes é preciso dormir para não desistir...
 
 
Deixa-te estar... e dorme.
A Primavera vem já a seguir
Fecha-se o Inverno na Curva da manhã e a Vida vai acontecer
Acontece sempre
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 13:04
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Segunda-feira, 13 de Junho de 2022

Palavras Interditas

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Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
(...)
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.
 
 Eugénio de Andrade
escrito no papiro por ACCB às 00:21
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Domingo, 12 de Junho de 2022

Eugénio de Andrade

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escrito no papiro por ACCB às 00:34
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Sábado, 11 de Junho de 2022

Lar

 
 

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( foto ACCB)

Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam: um estalar de madeiras, um ranger de degraus, um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros, como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto, o pequeno defeito no caixilho, são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.
 
 
ROSA LOBATO FARIA, in O SÉTIMO VÉU (2003; Ed. ASA, 2017)
 
escrito no papiro por ACCB às 00:14
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Sexta-feira, 10 de Junho de 2022

Tudo vem.......

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Tudo vem ao chamamento.
Penso mar, e o mar enche-me a alma e as mãos.
Balbucio cal, e na pele do tempo cresce uma casa onde não viverei, ergue-se uma cidade de melancolia na incerteza dos punhos, e nela nos ferimos.
 
Digo sol, e quase cego consigo tocar-lhe.
Só por ti clamo, e não te acendes, nem regressas, e me queimas.
 
 
AL BERTO, in LUNÁRIO (Contexto, 1988; Assírio & Alvim, 2017)
 
escrito no papiro por ACCB às 00:09
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Terça-feira, 7 de Junho de 2022

demora-te... vai....

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Demora-te no aconchego de um nome mudo, de um segredo que te tivesse chegado às mãos e não queimasse, de uma luz capaz de te trespassar os olhos sem cegar:
 
detém-te no que de beleza te atordoa mesmo que o ar te falte e a vertigem te retire o chão dos pés, enrolando como pano cru, o céu acima de ti
vai até onde toda a urgência se faz vã, observa a semente que germina, medita no segredo da planta que perfura a pele da terra, no lento desembrulhar das folhas, das flores, no sumarento insuflar dos frutos, detém-te diante de um casulo de insecto, sua seda enlaçada e brilhante, sente a textura e absorve a cor aveludada do musgo, repara no fluxo do pequeno ribeiro que rasga seu caminho por entre a ruiva cabeleira dos vimieiros, ergue o olhar até à linha da montanha que o nevoeiro devasta e diz-me: se um dia cada palavra aprender os sentidos que os teus sentidos lhe oferecem, que poderá haver ainda que elas não saibam dizer por ti?
 
ANTÓNIO GIL, in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 poetas (Coisas de Ler, 2012)
 
escrito no papiro por ACCB às 00:00
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Segunda-feira, 6 de Junho de 2022

A minha Tática

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"Minha tática é olhar-te aprender como tu és querer-te como tu és... Minha tática é falar-te e escutar-te construir com palavras uma ponte indestrutível... .
 
Minha tática é ficar em tua lembrança não sei como nem sei com que pretexto porém ficar em ti..
Minha tática é
ser franco e saber que tu és franca e que não nos vendemos simulados
para que entre os dois não haja cortinas nem abismos... ...
 
minha estratégia é em outras palavras mais profunda e mais
simples.. minha estratégia é
que um dia qualquer não sei como nem sei com que pretexto por fim me necessites.”
 
 
Mario Benedetti
escrito no papiro por ACCB às 23:52
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Se..........

 

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“Se eu não morresse nunca!
 
E eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas!”
 
Cesário Verde
escrito no papiro por ACCB às 23:32
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Sábado, 4 de Junho de 2022

Anel

 

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Olho o teu anel no meu dedo
No médio, que no anelar fica lasso
Olho o teu anel no meu dedo
E é como se a tua história estivesse incrustada na minha mão
A fazer lembrar a tua
Deformada
Olho o teu anel no meu dedo de pedra amarela
Semipreciosa
O único que recebeste
Esse que guardaste no fundo da gaveta da tua cómoda
E que envelheceu contigo
Entre comprimidos, papéis inúteis e cartas alheias
Sem envelope
E que te esqueceste de deitar fora
No teu quarto de reposteiros gastos, fora de moda e solitários
Enlouquecidos
Cheios das tuas insónias e das tuas mágoas
Com a roupa do teu amor mal dobrada a um canto
Abandonada
Olho o teu anel de ouro antiquíssimo
Elegante
Fundido num nome que odiavas
Com as tuas memórias gravadas que o tempo não oxidou
Olho o teu anel no teu dedo
Esse que usavas em todos os teus dias
Aborrecidos
Banais
Nas tuas mãos que nunca foram bonitas
Nas minhas que são iguais.
 
ANA PAULA JARDIM, in ROUPÃO AZUL (Editora Guerra & Paz, 2021)
 
 

 

escrito no papiro por ACCB às 00:04
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2022

......trago todos os cheiros comigo

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Ainda Hoje trago Todos os Cheiros Comigo

MOTE:
Ruy Belo /ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM CRIANÇAS
(....)
Se foste criança diz-me a cor do teu país 
Eu te digo que o meu era da cor do bibe 
e tinha o tamanho de um pau de giz 
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez 
Ainda hoje trago os cheiros no nariz 
(...)

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

____________________

 

O meu País era verde e vermelho e tinha um sol amarelo no meio. Quando era Verão o Sol era tão grande que me fazia franzir os olhos e olhar tudo por um fio de olhar com a mão em pala sobre as sobrancelhas.
Lembro-me bem do cheiro da areia de manhã cedo, porque era de manhã cedo que a areia embrulhada em mar tinha aquele cheiro que entrava pelo nariz dentro e criava espaço para combater as gripes depois, no Inverno.

 E o cheiro do mar chão... com a areia em ondinhas até lá dentro.. dentro, dentro, de tornozelos até ao fundo...

-Não te afastes que a maré está a encher não tarda! - dizia a mãe - vem cá que tens de pôr creme.
- E sinto o cheiro do creme,... ainda hoje não consigo usá-lo no Inverno porque me parece que todos olham e acham que cheguei da praia, que não faço mais nada que chegar da praia, que durmo lá e acordo lá, e os meus pés ganharam algas,... não tarda sonho que sou um peixe.
 

Ficava por ali naquele cheiro misturado à tarde com os pinheiros e as cigarras e esquecia os meses com a cor do meu bibe. O bibe que tinha de andar sempre limpo, sempre impecável, sempre como se ele fosse mais que eu, e eu dentre dele não me pudesse mexer não fosse estragar o vinco ou o laço.
 Esquecia o som do pau de giz que me entrava nos dentes até à alma e me arrepiava tanto que ficava capaz de gritar. E a Maria? A Maria quando ficava a  tomar conta da sala arranhava as unhas no quadro e transformava-se toda num pau de giz... Mas aí gritávamos muito e tapávamos os ouvidos. Às vezes batíamos  a rir com os pés no chão e a sala de aula parecia um enorme teatro em pateada.


Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez... as sapatilhas de ginástica tinham aquele cheiro característico e o palco da escola era escuro para o lado de fora nos dias das representações. Só tinha palmas no fim ou durante se alguém pensava que a hesitação  era o fim.
E o cheiro dos livros novos? Já não cheiram assim os livros da escola, nem os cadernos... Nem as tintas das caixas de guaches, nem os lápis de cor... mas ainda tenho o cheiro na memória e, às vezes passa um perfume com a minha professora da primária lá dentro.

E depois vinha de novo a escola... partia o sabor das sanduíches ao almoço na praia para não subir a ladeira até casa, até porque os amigos ficavam quase todos por lá. E se a mãe levava salada russa ( naquele tempo fazia-se )... não há mais nenhuma igual aquela com sabor a praia e a a maré cheia.
E a fruta comida ao calor a pouco e pouco aos pedaços, fresca da geleira que ía sempre leve para cima. As bananas que vinham da Madeira e nunca mais trouxeram aquele sabor único, as uvas brancas com sabor a risadas e a projectos para a seguir ao almoço...
os pés a escaldar de corrida  com gargalhadas porque descalços era mais rápido até lá acima


 E até lá acima era tudo, era o ver o Mar daqui de onde se avistava um Mundo enorme  que continuava para além do infinito...

Naquele tempo o meu País era verde e vermelho e tinha um grande Sol amarelo no meio... e ainda hoje trago todos os cheiros comigo... mesmo o daquele perfume que às vezes passa com a minha professora da primária lá dentro.

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 23:12
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Quinta-feira, 26 de Maio de 2022

Ah, abram-me outra realidade!

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Ah, abram-me outra realidade!
 
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
 
 
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
 
 
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!
 
 
Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
 
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
 
— Os quatro ventos do místico ar da civilização
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo
 
 
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Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa.
escrito no papiro por ACCB às 02:49
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2022

Bom e Expressivo

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Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.
 
Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,
tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: — Não é poesia!,
 
 
diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-
dra que rola na pedra...
 
 
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,
a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...
 
 
Alexandre O'Neill, in 'De Ombro na Ombreira'
escrito no papiro por ACCB às 00:20
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Terça-feira, 24 de Maio de 2022

A fronteira.......

Há um espaço de tempo misturado com um espaço de cadeira em que olhamos o teclado e pensamos que já não há forma de continuar.
Então chegamo-nos para trás e lemos 3 vezes as mesmas frases... e há uma dor que se enfia no ombro esquerdo e um peso de cristal de chumbo no olhar que teima em puxar as palpebras para dentro dos olhos...
É aquela hora em que ou passamos a fronteira...ou...vamos dormir.
______
Mergulho os olhos ao fundo, no mar.
Tem arestas de prata e é tão profundo quanto a noite.
Tiro do papel os ultimos acordes de decisões necessárias, trabalhadas a ferro e fogo pela noite dentro.
Não há aragem porque fechei a janela... nem passos.
Há um fio ténue entre o acordar e o escrever.... Passei a fronteira. Escrevo.
 
ACCB
 

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escrito no papiro por ACCB às 00:50
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Segunda-feira, 9 de Maio de 2022

Receita para escrever um poema

 

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Atiras uma frase para o papel assim meio misturada com a Lua, numa ordem desordenada que não diz nada e a que cada um dá a sua interpretação
Depois, dás um toque daquela realidade que todos já vivemos e pincelas com cores que não existem mas têm sons
Se fores sensível acertas no meio dos sentidos, se fores inteligente despertas os sentimentos, se fores transparente vêem-te como és e como são
Escreve.
 
9 Maio de 2021
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 21:42
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2022

À cause de 1 post da Filomena Lima

Sabedoria é não entender
 
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
 
Clarice Lispector ('A Descoberta do Mundo')
 

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Judith, Caravaggio, pormenor.

________________

É isso,... é daí que nos vem a procura do entendimento, na tentativa de abarcar tudo. Às vezes é bom, outras, é uma angústia porque sabemos que nunca vamos entender... Não é por não querermos... é por não entendermos, não abarcarmos a realidade "da coisa",... ou entendermos que a realidade da coisa não é entendível embora possa ser atendível.
Às vezes entendemos mas, não queremos acreditar, não pode ser como pensamos ou nos oferece a inteligência que seja. Não queremos ver dessa forma, a única que há para ver,... e então olhamos de outro prisma, ... dizem que tudo depende do prisma.
Deixa,... não é para entender.
 
ACCB
escrito no papiro por ACCB às 11:51
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Quarta-feira, 4 de Maio de 2022

Que quereis?

E então, que quereis?

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Baía de Halong - Vietname 2019

 
Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.
 
 
Vladimir Maiakovski
 
 
Bdia
escrito no papiro por ACCB às 22:57
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Terça-feira, 3 de Maio de 2022

Acima da Lei

9 de fevereiro de 2018 
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Público
 

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( Texto de João Correia Juiz de Direito )
 
Não, não estou acima da lei.
Vamos por partes:
Os juízes só podem ser detidos e/ou sujeitos a prisão preventiva em determinadas situações excepcionais, que não as mesmas que abrangem a generalidade dos cidadãos.
É uma norma excepcional e sendo excepcional, gera diferenças de tratamento. Como tal, o cidadão desconfia e questiona porque é que um juiz não pode ser detido ou preso preventivamente tal como qualquer outro cidadão, estando assim acima da lei.
É o preço da democracia e passo a explicar porquê:
Não são apenas os juízes. São também os deputados da Assembleia da República, o Presidente da República, candidatos a autarquias (entre outros, com regimes não iguais mas semelhantes).
Porquê?
Para evitar ou reduzir o risco de perseguições politicas.
Basta pensar no que aconteceria se porventura Portugal fosse uma “democracia musculada” como certos países que nós conhecemos (não é preciso puxar muito pela cabeça para imaginar três ou quatro destes países e não é preciso ir ao Iraque para chegar lá).
Quem não estivesse de acordo com o regime musculado vigente seria certamente alvo de despedimentos, exoneração de funções, e porque não dizê-lo, detenções fora do flagrante delito e prisões preventivas.
Pelo contrário, com estas prerrogativas especiais, existe a garantia que numa situação como esta pelo menos, um conjunto de pessoas que são o garante da democracia (juízes, deputados, candidatos a eleições, presidentes da república) não podem ser detidos ou presos por qualquer suspeita mas apenas em casos excepcionais.
Felizmente, vivemos num país em que a democracia é saudável e, como tal, tomamo-la como adquirida porém, a mesma não o é. O problema é que não podemos eliminar estas normas especiais (e desiguais) e depois, mais tarde, caso a saúde da nossa democracia se degrade, restabelecer as mesmas à pressa para restringir a possibilidade de perseguições políticas.
Custa-nos sempre pagar um preço por aquilo que consideramos adquirido mas isso não significa que este preço em concreto, a saber a desigualdade do juiz perante o cidadão, não traga benefícios a longo prazo que compensem largamente a diferenciação.
E se o juiz for um homicida?
Pois, é uma boa questão mas há que relembrar que não foram poucos os casos na história em que um assassinato no qual ninguém descobriu qual o seu autor mediato (por exemplo, porque quem puxou o gatilho foi abatido) deu origem a uma série de detenções e prisões digamos que “convenientes” apenas porque a vítima estava ligada a uma determinada facção política ou escola de pensamento.
Deixo esta desigualdade à vossa consideração com a certeza de que, durante o meu dia-a-dia, nem eu nem os meus colegas nos lembramos desta norma especial a qual, felizmente, na sociedade democrática que vivemos, não assume assim tanta importância.
Agora vou jantar.
Não tenham medo, não vou matar ninguém.
PS - Já agora, quando aparecer alguém na televisão ou jornais indignado com este "privilégio", desconfiem. Ou desconhece as razões que estão por detrás da excepção à regra ou então é mal intencionado.
escrito no papiro por ACCB às 22:20
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Sexta-feira, 29 de Abril de 2022

Sem mim

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Hoje acordei sem mim.
Saí à rua,
para me deixar possuir
pela simples leveza de existir.
 
 
 
Mia Couto, in Vagas e Lumes
.

 

escrito no papiro por ACCB às 03:56
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Segunda-feira, 25 de Abril de 2022

Abril de 2022- 49ª Edição

 

 

 

JustiçA com A Abril de 2022

 

 

 

escrito no papiro por ACCB às 23:25
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Sexta-feira, 22 de Abril de 2022

Tango

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Ludovic Geffroy

 Une femme,

les hanches envoûtées,

son pied tape le parquet,

la musique s’enflamme,

ses pieds frappent le bois,

la robe voltige,

la salle s’envole,

les courbures de son corps s’embrasent,

tous valdingues dans une rythmique affolante.

j’en perds mes yeux,

ils sont ailleurs.

en avant pour se faire aimer,

en arrière pour se faire désirer,

elle tourne et se retourne encore.

son feu m’anime,

je deviens fou,

la voir me transperce,

l’épidémie se propage.

ses talons claquent,

le sol résonne,

sa grâce relève de la divinité,

elle est une déesse volcanique,

qui brûle à chacun de ses gestes.

elle touche du doigt un érotisme,

qu’il ne m’est pas permis de dessiner,

je ne peux le penser,

il m’est impossible de le rêver,

elle est intouchable,

irrespirable.

elle voltige inlassablement,

la piste s’agrandit,

le galbe de ses jambes,

ne cesse de s’allonger.

je suis à genoux,

frappé par sa beauté,

assommé par sa magie,

je n’en peux plus,

je suis à bout.

Elle se répand sur la ville,

elle danse sur le monde.

Je cours,

la suivant au bout de tous.

je veux être son partenaire,

dansant à chaque battement de son coeur

je veux être son effigie,

prenant la posture de la dévotion,.

Me figeant dans son bien être.

 

 

Un homme

Ombre contre ombre,

ma main a pris la sienne,

une nouvelle musique commence,

les décibels voluptueuse,

grimpe le long de notre chair,

comme une caresse.

On sent les prémices d’un départ,

le tempo traverse nos oreilles,

je guide se qui est me ravissent,

je porte se qui est mon passé,

je fait virevolter,

j’emmène mon future,

le temps n’existe plus,

il est une équation de mon amnésie.

Sur la piste,

la virtuosité de deux âmes,

qui sont des artiste de l’amour.

Les murs n’existent pas,

pour danser sur les horizons.

Bleu ou gris,

les couleurs sont toutes belle.

Je serre ma lune,

je gravite autour d’elle,

contemplant,

admirant,

aimant.

Mes doigts se posent sur elle,

sur ce corps que je désirs tant,

un orage me bouleverse,

un ouragan me submerge,

je n’y voit plus rien,

tout est flou,

la pluie tombe dans ma tête,

comme les applaudissement d’un public,

je divague,

je suffoque.

Sa poitrine sur mon coeur,

c’est trop beau,

c’est trop merveilleux,

je sens ces cuisses me frôler,

faisant naître des frissons.

Elle me touche,

je deviens un déluge,

un raz de marée.

Une atmosphère chargé de jouissance,

annonce une fin,

ou les notes vont mourir,

pour donner vie au silence,

je ferais de ce final,

un renversé passionnelle,

pour recevoir mon plaisir,

pour donner mon amour.

 

A ma femme.

 

LG Septembre 2009

 

escrito no papiro por ACCB às 04:14
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Quinta-feira, 21 de Abril de 2022

Eu nem sabia........

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Eu não sabia que escrevia...

É que eu nem sabia!...

 Escrevia.

 

 Escrever é assim uma espécie e forma de dizer

o que não sabemos que nos vai na alma

 Mas vai

 

 É uma forma de libertar

o que nos  enrodilha

 ou sobressalta

 o que afinal está dentro de nós

 ...mas não sabemos

 

 parece um acto mecânico, ou mágico

 de libertação

 catarse

 ou existir

 

 Um equilibrar os desiquilibrios

as ânsias e o que não podemos realizar

 Imaginamos

 

 

 Agora vou

 Volto logo com os pensamentos a que chamam escrita.

 

ACCB

 

 

escrito no papiro por ACCB às 12:20
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A Escrita

"Mas a escrita exige solidões e desertos

E coisas que se vêem como quem vê outra coisa"

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(...)

Lord Byron usava as grandes salas

Para ver a solidão espelho por espelho

E a beleza das portas quando ninguém passava

Escutava os rumores marinhos do silêncio

E o eco perdido de passos num corredor longínquo

Amava o liso brilhar do chão polido

E os tectos altos onde se enrolam as sombras

E embora se sentasse numa só cadeira

Gostava de olhar vazias as cadeiras

Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital

Mas a escrita exige solidões e desertos

E coisas que se vêem como quem vê outra coisa

Pudemos imaginá-lo sentado à sua mesa

Imaginar o alto pescoço espesso

A camisa aberta e branca

O branco do papel as aranhas da escrita

E a luz da vela - como em certos quadros -

Tornando tudo atento

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

escrito no papiro por ACCB às 12:02
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Quarta-feira, 20 de Abril de 2022

Quando nos morre ..........

 
 
 

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“Dança de luz”
 
Folheio as imagens que me deixaste. Só
a luz mudou. O tom seco do fundo. Tudo o resto
se manteve, até o ruído das folhas
quando o vento cresce.
Construo a memória nesta
hesitação de tempos. Ponho na mesa
as peças do enigma. Deixo que
se misturem para que nada
se torne simples.
No entanto, o teu nome
chama por mim. A tua voz esvazia tudo
o que está à minha volta. Vens
com a luz branca da noite. Desenhas o contorno da tua ausência.
Um vácuo tão cheio de vida. Visão
que lembra fios suspensos de teia
interrompida.
 
– Nuno Júdice, in “Cartografia de Emoções”
escrito no papiro por ACCB às 21:34
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Terça-feira, 19 de Abril de 2022

..................

 

 

 

E POR FALAR EM SAUDADE

escrito no papiro por ACCB às 18:52
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2022

Nostalgias

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( 30 Julho de 1928 15 Abril de 2022 )
 
Há uma nostalgia nas "pessoas antigas" que nos faz parar entre o que somos e o espaço de imaginar como seremos.
Há nas palavras que nos dizem um percurso feito a sonho realizado ou perdido,.... vá-se lá saber porque filosofia estranha.
 
Há as que acreditam que podem e realizam, as que realizam e as que genericamente acham que a realização não passa de uma ilusão bonita e enganadora, cheia de perguntas sobre de onde viemos, para onde vamos, o que somos....
Todas sonham,...todas querem, todas vivem para perceber o porquê deste percurso ou, vá-se lá saber porquê, apenas para o realizar.
 
 
ACCB
 24 Maio de 2016
escrito no papiro por ACCB às 23:30
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Eunice MuÑoz

"A Margem do Tempo", espetáculo com que escolheu encerrar a carreira, ao lado da sua neta, Lídia. 

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escrito no papiro por ACCB às 16:19
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Terça-feira, 12 de Abril de 2022

Um dia destes.....

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um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que não me doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom – que é um toque fundo na ferida da inteligência:
¿ oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
: escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas.
 
 
 
HERBERTO HELDER, in SERVIDÕES (Assírio & Alvim, 2013)
escrito no papiro por ACCB às 19:10
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Quarta-feira, 6 de Abril de 2022

BLUES DA MORTE DO AMOR

 

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já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
 
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
 
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
 
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
 
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
 
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
 
VASCO GRAÇA MOURA, in ANTOLOGIA DOS SESSENTA ANOS (Ed. Asa, 2002)
BLUES DA MORTE DO AMOR
 
 
escrito no papiro por ACCB às 04:02
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Terça-feira, 5 de Abril de 2022

Civis/Guerra

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IV - Convenção de Genebra - artº 3º RELATIVA À PROTECÇÃO DAS PESSOAS CIVIS EM TEMPO DE GUERRA, DE 12 DE AGOSTO DE 1949 Também assinada pela Rússia

escrito no papiro por ACCB às 01:07
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Segunda-feira, 4 de Abril de 2022

Ucrânia Algures no planeta Terra

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Eles mentem.
É conclusivo.



Já a mentira não traz conclusão nenhuma.
Eles mentem e baralham as cartas da culpa que mais que solteira é velha, feia, escanzelada, infeliz, podre ...
Lembra-me o Dantas - pim.
Mas não há quem mate a culpa porque a mentira a mantém viva. Desnorteada, desgrenhada, desmembrada,...só... desconhecida.
__________
Os Sonhos estilhaçam-se e tudo passa a um filme em loop...
E se fosse Lisboa?
A nossa Lisboa cheia de luz, de vida, de rio, de azul....
Quem lhes deu o Direito de arruinar tudo?
Onde estão os Tratados ...são internacionais porquê e para quê? Para que servem? Internacional abarca até onde?!
Ah pois temos o problema da geopolítica....
___________
Servem-nos a Guerra pela noite dentro com números à mistura e imagens chocantes aos mais sensíveis ...
Hironia, hipocrisia, .... CRIME.
Desde 24 de Fevereiro que é um crescendo de crimes em directo, de discursos inflamados, de negociações com tempo perdido, à distância, on line,...ali ..sentados no sofá ao serão...
Já nem sei se tenho direito a sorrir
Quem tenta roubar-nos o direito a sorrir? A ser feliz?
Com que objectivo?!
Com que direito?
Não basta a existência e as consequências dessa existência?
Não há forma de existir e resistir e sorrir apenas....?
Não basta morrer, ter de morrer?
É preciso matarem?
E estilhaçarem os sonhos amarrarem a vontade, as mãos, e os pés e dispararem?....
Crimes.....
_______
Quando estudei Direito disseram me que todos os crimes tinham pena à medida da culpa
Mas isso era no tempo em que se sabia da culpa .....
..........
ACCB


escrito no papiro por ACCB às 01:48
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Domingo, 3 de Abril de 2022

Lunário

AL BERTO, in LUNÁRIO (1988; Assírio & Alvim, 2017)
.

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No centro da cidade, um grito.
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar e sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado.
Tem a dimensão de um túmulo e todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte.
 
Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar.
Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi, e uma abelha pousa-me no azul do lírio e no cardo que sobreviveu à geada.
Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. oiço-te ciciar: amo-te, pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte, acaba o corpo.
 
Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho:
Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge.
escrito no papiro por ACCB às 14:01
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Sábado, 2 de Abril de 2022

Não acabarão com o amor

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Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.



Vladimir Maiakóvski

escrito no papiro por ACCB às 21:52
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As canetas Os poemas

Há entre as canetas e os poemas um cordão umbilical
Um estar junto separado
E mesmo que as teclas se aproximem da escrita e a desenhem
É na caneta que o poema pensa quando ganha forma
É por ela que flui a escrita
Não adianta ir à varanda e procurar a frase
Elas são assim como os vírus
cruzam-se connosco de repente
E depois,... depois chegam todas
Vá-se lá saber de onde,... as vadias
E despejam-se no espaço em branco
ecrã com luz... tipo folha de papel.
 
ACCB
 

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escrito no papiro por ACCB às 18:12
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Estão sentados quase Lado a Lado

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ESTÃO SENTADOS QUASE LADO A LADO
 
Estão sentados quase lado a lado
no chão à espera que passe um barco,
a luz muito quieta
no regaço
.
como se fora um gato, o sorriso
antigo, a casa
à beira do crepúsculo
atenta aos passos nas areias;
.
era outra vez Abril,
chovia no jardim, já não chovia,
um aroma, apenas um aroma,
tornava espesso o ar.
.
Uma criança me leva rio acima.
 
 
EUGÉNIO DE ANDRADE, in CONTRA A OBSCURIDADE (Limiar, 1988; BRANCO NO BRANCO-CONTRA A OBSCURIDADE, Assírio & Alvim, 2015)
 
escrito no papiro por ACCB às 04:04
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Fica ou Muda

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O cobrador viu que eu não saía do comboio, pensando poder continuar junto à última janela do último assento, lá bem atrás. Estávamos na última estação da primeira etapa do percurso e só as carruagens da frente seguiriam, a partir dali. Para os demais, a viagem terminava naquele momento.
 
Ele, então, olhou para mim e disse " Ou fica ou muda".
E eu, como sou obediente, fiquei muda.
 
 
FL 2017
escrito no papiro por ACCB às 03:55
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