Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

Procuro-te

 

Procuro a ternura súbita,

os olhos ou o sol por nascer

do tamanho do mundo,

o sangue que nenhuma espada viu,

o ar onde a respiração é doce,

um pássaro no bosque

com a forma de um grito de alegria.

 

Oh, a carícia da terra,

a juventude suspensa,

a fugidia voz da água entre o azul

do prado e de um corpo estendido.

 

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.

Chamo por ti, e o teu nome ilumina

as coisas mais simples:

o pão e a água,

a cama e a mesa,

os pequenos e dóceis animais,

onde também quero que chegue

o meu canto e a manhã de maio.

 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa

quando te procuro de rosto cravado na luz.

Eu sei que há diferenças,

mas não quando se ama,

não quando apertamos contra o peito

uma flor ávida de orvalho.

 

Ter só dedos e dentes é muito triste:

dedos para amortalhar crianças,

dentes para roer a solidão,

enquanto o verão pinta de azul o céu

e o mar é devassado pelas estrelas.

 

Porém eu procuro-te.

Antes que a morte se aproxime, procuro-te.

Nas ruas, nos barcos, na cama,

com amor, com ódio, ao sol, à chuva,

de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

 

Eugénio de Andrade

escrito no papiro por ACCB às 23:59
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Se Eu Pudesse Trincar a Terra Toda

 
Se eu pudesse trincar a terra toda

E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem
sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se
poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta
muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade

Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies

E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo

Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como
quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que
o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"

Heterónimo de Fernando Pessoa
escrito no papiro por ACCB às 15:00
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Domingo, 16 de Outubro de 2011

Deito-me tarde

 
Deito-me tarde
 

  Espero por uma espécie de silêncio
  Que nunca chega cedo
  Espero a atenção a concentração da hora tardia
  Ardente e nua
...  É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
  É então que se vê o desenho do vazio
  É então que se vê subitamente
  A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê passar o silêncio
 
 
 
Navegação antiquíssima e solene
  de Sophia de Mello Breyner AndresenVer mais
 
escrito no papiro por ACCB às 23:47
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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

A noite passada

 

 

( foto de Miguel Martins )

 

 

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui
esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem
até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou
gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu
olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada
fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o
pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia
escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos
muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu
peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao
debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro
e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então
olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

..........

 

SG

................................

escrito no papiro por ACCB às 21:39
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Sábado, 1 de Outubro de 2011

Há que fazê-lo por vezes.

escrito no papiro por ACCB às 07:33
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De Amor nada Mais Resta que um Outubro

 

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia

escrito no papiro por ACCB às 00:15
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

Hoje faz anos que está viva (conte muitos)

 

Quando eu morrer

 

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

 

 

Maria do Rosário Pedreira

 

escrito no papiro por ACCB às 15:13
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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Perguntaram por mim

Cecília Meirelles - Metal Rosicler

Metal Rosicler foi publicado em 1960. Este é o primeiro poema do livro:
1
Não perguntavam por mim,
mas deram por minha falta.
Na trama da minha ausência,
inventaram tela falsa.
Como eu andava tão longe,
numa aventura tão larga,
entregue à metamorfose
do tempo fluido das águas;
como descera sozinho
os degraus da espuma clara,
e o meu corpo era silêncio
e era mistério minha alma -
- cantou-se a fábula incerta,
segunda a linguagem da harpa:
mas a música é uma selva
de sal e areia na praia,
um arabesco de cinza
que ao vento do mar se apaga.
E o meu caminho começa
nessa franja solitária,
no limite sem vestígio,
na translúcida muralha
que opõem o sonho vivido
e a vida apenas sonhada.
(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 147)
escrito no papiro por ACCB às 07:37
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Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

Poema

 
 
Mais sorrisos do que lágrimas,
É o que a alma pede
...e a vida não requer mais:

O que o sonho exige do acto;
...É o compromisso inexacto
Entre o fruto e a derrota

Entre o princípio e o fim
Resta o precipício...e o passo
Que traçam todo um fado:

A rota do bem estar
está no estebelecer desse laço:
Curta a viagem,... e doce o viajar.

Teresa Cunha _ in - Na Floresta não há só Borboletas
escrito no papiro por ACCB às 19:21
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Terça-feira, 12 de Julho de 2011

Que nenhuma estrela queime o teu perfil

 

 

 

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

 

 

                                                                Sophia de Mello Breyner Andresen

escrito no papiro por ACCB às 23:29
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Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

Foto de hoje corre mundo

 

 

 

Daniel Filipe

A invenção do amor

Em todas as
esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de
aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra
ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do
tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e
uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre
zunidos de conversa
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando
cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma
mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se
sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um
sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade
diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora
subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente
imperativo

Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as
esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A
policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas
avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam
tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los
antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção
do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem
os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os
reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a
lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma
mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É
indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e
a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração
das pessoas

Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da
contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino
pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo
o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos
silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da
disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os
psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido
a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É
absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da
doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala
no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da
civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que
nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações
políticas

...

É possível que cantem
mas defendam-se de entender
a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o
rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de
Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a
infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das
montanhas
Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal
maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário
amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade
incorrupta

...

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel
se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam
barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à
Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é
preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de
urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar
de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem
família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz
interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da
adolescência longínqua

24.6.2011
escrito no papiro por ACCB às 20:52
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Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

FERNANDO PESSOA 123º aniversário

 
 
 
 
Álvaro de Campos
Às Vezes
 
    Às vezes tenho idéias felizes,
    Idéias subitamente
felizes, em idéias

    E nas palavras em que naturalmente se
despegam...

    Depois de escrever, leio...
    Por que escrevi isto?

    Onde fui buscar isto?
    De onde me veio isto?  Isto é
melhor do que eu...

    Seremos nós neste mundo apenas canetas com
tinta

    Com que alguém escreve a valer o que nós aqui
traçamos?...

escrito no papiro por ACCB às 18:31
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Terça-feira, 22 de Março de 2011

O Poema

 

 

 

I

 

Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne.

Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

 

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

rios, a grande paz exterior das coisas,

folhas dormindo o silêncio

— a hora teatral da posse.

 

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

 

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as casas deitadas nas noites

e as luzes e as trevas em volta da mesa

e a força sustida das coisas

e a redonda e livre harmonia do mundo.

— Em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

 

— E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

 

[in Ofício Cantante — poesia completa, de Herberto Helder, pág. 28, Assírio & Alvim, 2009]

 

 

escrito no papiro por ACCB às 23:15
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Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

Danzar es el juego de la vida

  
escrito no papiro por ACCB às 22:13
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

Poesia e verdade

 

 

É possível que a poesia seja ficção, mas

 

eu prefiro pensá-la como Goethe:

  

 inseparável da verdade.

  

  

                                                                    Eugénio Andrade

  

 

 

---------___________---------

 

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escrito no papiro por ACCB às 23:52
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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

as paisagens que não existem

 

 

 

O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim…

 

O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem…

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!…


 

 

Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito…

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!…


 

Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema - Vitória!

 

Não sei… Eu sou um doido que estranha a sua própria alma…
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos…

 

 

Fernando Pessoa

 

escrito no papiro por ACCB às 22:32
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Almeida Garrett - 4 de Janeiro

 

 

 

NÃO TE AMO

Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
   E eu n'alma --- tenho a calma,
   A calma --- do jazigo.
   Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
   E a vida --- nem sentida
   A trago eu já comigo.
   Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
   De um querer bruto e fero
   Que o sangue me devora,
   Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
   Quem ama a aziaga estrela
   Que lhe luz na má hora
   Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
   De mau feitiço azado
   Este indigno furor.
   Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
   Que de mim tenho espanto,
   De ti medo e terror...
   Mas amar!... não te amo, não.

                       Almeida Garrett

escrito no papiro por ACCB às 16:13
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Domingo, 30 de Janeiro de 2011

ANNIE

 


Na costa do Texas
Há entre Mobile e Galveston
Um imenso jardim cheio de rosas
E no interior desse jardim uma villa
Que é uma grande rosa

 


Uma mulher passeia-se amiúde
Sozinha no jardim
E quando eu passo em frente na estrada bordada de tílias
Olhamo-nos longamente

Como esta mulher é menonita
As suas roseiras e os seus vestidos não têm um só botão
Faltam dois no meu casaco
É como se essa mulher e eu seguíssemos a
mesma religião

Apollinaire

 

escrito no papiro por ACCB às 00:12
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Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

Lembras-te?

 

 

 

Por entre os teus novelos...soltos
As bátegas de chuva, são silêncios medo
No sentir forte do frio intruso
...Em luares de ondulação sem cor.

O livro desfolha-se sozinho
Pelo sopro do esperar sem norte
Enquanto as gaivotas ancoram em terra
Sofridas na tempestade de razões feridas.

Restam os velhos chorões envergonhados no escuro
E até o amanhã adormeceu ontem em cadência igual
Porque as páginas são sempre imagens de um só tom

 


E os olhos do velho farol mirram sem apelo...

Não...não te lembras!

in MEMÓRIAS - by OUTONO - 2011
escrito no papiro por ACCB às 01:03
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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

O amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o amor antigo, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

 

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

escrito no papiro por ACCB às 23:00
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Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

La Luna

  

  


La Luna se puede tomar a cucharadas
o como una cápsula cada dos horas.
Es buena como hipnótico y sedante
...y también alivia
a los que se han intoxicado de filosofía.
Un pedazo de luna en el bolsillo
es mejor amuleto que la pata de conejo:
sirve para encontrar a quien se ama,
para ser rico sin que lo sepa nadie
y para alejar a los médicos y las clínicas.
Se puede dar de postre a los niños
cuando no se han dormido,
y unas gotas de luna en los ojos de los ancianos
ayudan a bien morir.

Pon una hoja tierna de la luna
debajo de tu almohada
y mirarás lo que quieras ver.
Lleva siempre un frasquito del aire de la luna
para cuando te ahogues,
y dale la llave de la luna
a los presos y a los desencantados.
Para los condenados a muerte
y para los condenados a vida
no hay mejor estimulante que la luna
en dosis precisas y controladas.

jaime sabines

 

 

escrito no papiro por ACCB às 01:00
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Por qué se ama?

 

 

Cuán extraño es ver un solo ser en el mundo,

 

tener un solo pensamiento en el cerebro,

 

un solo deseo en el corazón y un solo nombre en los labios...

 

un nombre que asciende continuamente,

 

como el agua de un manantial,

 

desde las profundidades del alma hasta los labios,

 

un nombre que se repite una y otra vez,

 

que se susurra incesantemente,

 

en todas partes,como una plegaria...

 

(Guy de Maupassant)

 

 

 

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Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Fernando Pessoa 30.11

 

( Norberto Nunes pinta Pessoa -"Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou"

 

 

Acordo de noite subitamente.
E o meu relógio ocupa a noite toda.
(...)

O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.


E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,


Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...

Fernando Pessoa

 

 

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.

É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões.

 

 

escrito no papiro por ACCB às 18:00
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

QUE FIZESTE DAS PALAVRAS?

     Que fizeste das palavras?
     Que contas darás tu
     dessas vogais
     de um azul tão
     apaziguado?

     E das consoantes, que
     lhes dirás,
     ardendo entre o fulgor
     das laranjas e o sol dos
     cavalos?

     Que lhes dirás, quando
     te perguntarem pelas
     minúsculas
     sementes que te
     confiaram?

 

 

                      Eugénio de Andrade 

escrito no papiro por ACCB às 07:37
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Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

Quero um erro de gramática que refaça

  

  

 

 

 

Quero um erro de gramática que refaça

na metade luminosa o poema do mundo,

e que Deus mantenha oculto na metade nocturna

o erro do erro:

alta voltagem do ouro,

bafo no rosto.

  

 

( faz hoje 80 anos ) Helder, Herberto,

 

“Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

 

 

escrito no papiro por ACCB às 23:28
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Sábado, 20 de Novembro de 2010

Procuro-te

 

 

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"

 

 

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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

let's not talk of things we can't untie,

 

I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes, many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but now it's come to distances and both of us must try,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

I'm not looking for another as I wander in my time,
walk me to the corner, our steps will always rhyme
you know my love goes with you as your love stays with me,
it's just the way it changes, like the shoreline and the sea,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

escrito no papiro por ACCB às 00:44
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O teu nome

vieiradasilva-quarto_cinzento-1a.jpg image by alter

 

Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa.

 

Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome.

 

Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria.

 

E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar:

é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

 

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.

 

 

Maria do Rosário Pedreira

escrito no papiro por ACCB às 00:40
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Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Tão longe a estrela

Tantas horas a querer
pendurar um poema
numa estrela...

Um poema,
isto é uma fala
murmurada baixinho,
escondida num papel dobradinho...
Um recado
balbuciado a medo.
Um segredo
que o Poeta
quer e não quer revelar
como a coisa mais bela.

Tão longe a estrela!...

-Não teimes mais, Poeta!
Desiste de a alcançar!

Saúl Dias-Obra Poética
escrito no papiro por ACCB às 12:45
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

Mimos que me mandam

 

 

 

 

"Havia luz demais no teu poema

por isso esperámos pela noite.

Escureceu na pequena estação

junto à praia, mas o teu poema

continuava a brilhar no meio das notícias

 ....

Ficámos assim muito tempo.


Nenhum de nós saberia dizer o que esperámos.

 

 Apenas as palavras começaram a afastar-se,

 para nós entendermos. Como a luz."

 



L.F. Castro Mendes, "Nocturnos

 1. (Sobre um poema de Nuno Júdice)

 

Poesia Reunida (1985-1999)

escrito no papiro por ACCB às 00:32
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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

Na palma da mão

dois caminhos, caminhos floridos, dois caminhos imagem, terapia corporal em adolescentes

Abro as mãos; nelas
podes ver
o que quiseres: apenas
o teu rosto
se não quiseres olhar
para as minhas
mãos
ou as rugas, pregas
finas
nos meus dedos,
outros sinais do tempo
que não foi teu.
Abro as mãos; repara
nelas, deita-lhe ao menos
um olhar
agora que uma estrela
rompeu os céus
no céu de Praga
e as minhas mãos já não cantam
nos teus lábios
para sempre rendidos
ao rasto da estrela
e à luz nocturna
do cristal.
António Mega Ferreira (1949)
 
O Tempo que Nos Cabe
 
 
-
escrito no papiro por ACCB às 17:43
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Domingo, 19 de Setembro de 2010

...despedimo-nos...

 

 

 

 

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
...peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável
do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que Lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos

***


Gastão Cruz

 

 

escrito no papiro por ACCB às 09:28
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Sábado, 10 de Julho de 2010

Questo amore

 
Questo amore
Così violento
Così fragile
Così tenero
Così disperato
Questo amore
Bello come il giorno
E cattivo come il tempo
Quando il tempo è cattivo
Questo amore così vero
Questo amore così bello
Così felice
Così gaio
E così beffardo
Tremante di paura come un bambino al buio
E così sicuro di sé
Come un uomo tranquillo nel cuore della notte
Questo amore che impauriva gli altri
Che li faceva parlare
Che li faceva impallidire
Questo amore spiato
Perché noi lo spiavamo
Perseguitato ferito calpestato ucciso negato dimenticato
Perché noi l'abbiamo perseguitato ferito calpestato ucciso negato dimenticato
Questo amore tutto intero
Ancora così vivo
E tutto soleggiato
È tuo
È mio
È stato quel che è stato
Questa cosa sempre nuova
E che non è mai cambiata
Vera come una pianta
Tremante come un uccello
Calda e viva come l'estate
noi possiamo tutti e due
Andare e ritornare
Noi possiamo dimenticare
E quindi riaddormentarci
Risvegliarci soffrire invecchiare
Addormentarci ancora
Sognare la morte
Svegliarci sorridere e ridere
E ringiovanire
Il nostro amore è là
Testardo come un asino
Vivo come il desiderio
Crudele come la memoria
Sciocco come i rimpianti
Tenero come il ricordo
Freddo come il marmo
Bello come il giorno
Fragile come un bambino
Ci guarda sorridendo
E ci parla senza dir nulla
E io tremante l'ascolto
E grido
Grido per te
Grido per me
Ti supplico
Per te per me per tutti coloro che si amano
E che si sono amati
Sì io gli grido
Per te per me e per tutti gli altri
Che non conosco
Fermati là
Là dove sei
Là dove sei stato altre volte
Fermati
Non muoverti
Non andartene
Noi che siamo amati
Noi tu abbiamo dimenticato
Tu non dimenticarci
Non avevamo che te sulla terra
Non lasciarci diventare gelidi
Anche se molto lontano sempre
E non importa dove
Dacci un segno di vita
Molto più tardi ai margini di un bosco
Nella foresta della memoria
Alzati subito
Tendici la mano
E salvaci.
 
escrito no papiro por ACCB às 22:50
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Romance de la luna

escrito no papiro por ACCB às 22:50
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Pour toi mon amour

 

 

 
       
 

Je suis allé au marché aux oiseaux
Et j'ai acheté des oiseaux
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché aux fleurs
Et j'ai acheté des fleurs
Pour toi
Mon amour
Je suis allé au marché à la ferraille
Et j'ai acheté des chaînes
De lourdes chaînes
Pour toi
Mon amour
Et je suis allé au marché aux esclaves
Et je t'ai cherchée
Mais je ne t'ai pas trouvée
Mon amour

 

Jacques Prevert

escrito no papiro por ACCB às 22:49
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Domingo, 4 de Julho de 2010

O Olhar dos olhos teus

escrito no papiro por ACCB às 22:30
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Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

Soneto do amor difícil

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

                 David Mourão-Ferreira
escrito no papiro por ACCB às 01:30
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Quinta-feira, 17 de Junho de 2010

noutro lugar, não aqui

 

Noutro lugar, não aqui, uma mulher poderia trocar
algo entre o belo e lugar nenhum, de regresso ali
e aqui, poderia fazer progressos na sua
agitada vida, mas eu tentei imaginar um mar que não
sangrasse, um olhar de rapariga cheio como um verso, uma mulher
a envelhecer e sem chorar nunca ao som de um rádio a sibilar
o homicídio de um rapaz negro. Tentei que a minha garganta
gorjeasse como a de uma ave. Escutei o duro
bisbilhotar de raça que habita esta estrada. Mesmo nisto
tentei murmurar lama e plumas e sentar-me tranquilamente
nesta folhagem de ossos e chuva. Mastiguei algumas
folhas votivas aqui, o seu sabor já a desencantar
as minhas mães. Tentei escrever isto calmamente
mesmo quando as linhas ardem até ao fim. Acabei por aprender
algo simples. Cada frase imaginada ou
sonhada salta como uma pulsação com história e toma
partido. O que eu digo em qualquer língua é dito com perfeito
conhecimento da pele, em embriaguez e pranto,
dito como uma mulher sem fósforos e mecha, não em
palavras e em palavras e em palavras decoradas,
contadas em segredo e sem ser em segredo, e escuta, não
se extingue nem desaparece e é abundante e impiedoso e ama.


dionne brand

escrito no papiro por ACCB às 13:00
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Sexta-feira, 11 de Junho de 2010

MOTE:- Tenho os olhos gastos

 

Olhos gastos, das notas de rodapé, das insónias, das noites perdidas, das viagens sem descanso, das esperas caladas, do fio do horizonte, dos prados que secam, das lonjuras, das perplexidades, das flores que morrem, dos amores que se perdem, das vidas adiadas...

Coutinho Ribeiro
_____________

 

Tenho os olhos gastos meu amor
Gastos das noites acordadas pelas memórias
que me ficaram de ti e de nós...

A luz cansada do meu quarto...
gasta-me os olhos
na procura do teu rosto
Talvez dos contornos do teu corpo

Tenho os olhos gastos meu amor....
De tentar descobrir a razão da tua ausência
A causa do meu afastamento.

Tão gastos meu amor
que nem a chuva que bate lá fora nos vidros cansados de esperar
Lava a dor que a tua falta lhes deixou


Tão gastos meu amor
Que me perco na solidão dos adiamentos
na perplexidade de não te poder olhar.

Lininhacbo
_____________

 

Gastei os olhos pelo nada, que afinal era o que havia, tudo o mais foi inventado. Por mim. Até o rosto e os contornos do corpo, até o cinzel com que te desbravei as arestas. Sim, meu amor, aventura de guerreiro que vinha da solidão, perdido nessa sua solidão, em delírios azuis. Ausência? Não, nunca a tua ausência me gastou os olhos. Não é ausente o que não houve. gastei os olhos no nada.

Coutinho Ribeiro
________________

Tenho os olhos gastos, meu amor....
Cansaram-se de tanto caminhar nas linhas das cartas que escreveste. Sabes, guardo-as todas.
Até ao mais pequeno bilhete, daqueles que deixavas na mesa da cozinha ao lado da caneca do café para eu ler quando acordava e tu já não estavas.
Tenho saudades das tuas cartas, meu amor.
De sentir a poesia da tua escrita e de imaginar os teus dedos a
navegar as folhas de papel com a mesma ternura que afagavas os meus cabelos e a linha do meu pescoço.
Perdemos a poesia, amor.
Deixámos-nos envolver no turbilhão e perdemo-nos.
Perdi-me.
E perdi-te.
Gastei os olhos também aí e as palavras.
Essas guardo-as agora no fundo dos meus olhos cansados na espera permanente de te ter de volta.

Eva Garcia

_______________________


"Tenho os olhos gastos… de procurar por ti…
De procurar pelos meus sonhos
Aqueles meus sonhos de menina…
Encontrei-os por fim, naquele cruzamento de vida onde te conheci…
Jaziam lá… inertes, sem vida, e eu sem saber…
Ainda não tive coragem de os enterrar…
estão ali, varridos num canto de mim, à espera que faça o seu luto.
Faltam-me as forças…
Nos olhos, nas mãos, no peito…
Faltam-me as forças para te dizer…
Que tenho os olhos gastos, meu anjo;
Gastos de te esperar no meu futuro.

( Amiga identificada :-) )

__________________


Sonhei teus olhos d'empréstimo
que meus são gastos. Traziam
o tom dos prados
em cristal de mar
(saltitam como aves de voar)...
e sem o traço de medo:
só o segredo
de onde pára o arco-iris.
Pela manhã restam os meus
(cansados e ateus)
que já só respiram
cinzento
na ajuda da noite.


(AM)


_________________________


"...a distância do nosso amor fica na distância do nosso olhar, na distância do nosso toque, na distância das gotas de suor dos nosso corpos quando fazem amor... a distância do nosso amor fica na distância do teu respirar junto ao meu peito ou no beijo que deposito nos teus lábios... a distância do nosso amor fica na ânsia de nos voltarmos a encontrar e sentirmos que amar não é só ser e estar mas também o desespero do ter de ir e não poder ficar... a distância do nosso amor fica na distância dos dedos quando se entrelaçam e os corpos se abraçam e ao som de uma doce melodia, os corpos juntos num só, levemente sobre si mesmo rodopia... a distância do nosso amor fica na distância das pequenas distâncias dos pequenos nadas a que damos tanta importância... a distância do nosso amor fica apenas a um simples passo da nossa própria distância..."

Lobices

_____________

 

Tenho os olhos gastos pela tua ausência. Gastos de serem abertos no escuro. De esperarem despertos pela tua descida à terra. De percorrerem a memória do teu rosto sem uma imagem fixa que os console. Tenho os olhos gastos, como vastos os teus afluentes me irrigam. Tenho só os olhos teus, e me bastam.

Porfírio

__________


No Fio do horizonte, entre lapides, encontramos o silencio.
Para lá dos muros, vislumbramos a vida.
Para lá dos muros não havia paragem.
As viagens fizeram se sem descanso.
Procurava mos, na insónia, os corpos das noites perdidas....
Os corpos que secaram, como prados, na nossa memória.
As palavras procuravam realizar as vidas adiadas,
As Palavras desenhavam, em paginas brancas, os amores que se perdem.
No fio do horizonte,
para lá dos muros,
em viagens pelos corpos que secam,
adiavamos a vida
em palavras que se perdem.

E aqui sob a terra, o corpo descansa,
em espera calada, nos dias que se sucedem,
por uma mão.
A tua mão.
A mão que deixou saudosas flores.
Flores que morrem, há muito, sobre nós
Afinal somos apenas uma nota de rodapé,
de uma vida adiada, no amor que se perdeu,
na lonjura do horizonte, para lá dos muros.

E para sempre,
no fio do horizonte,
descanso
meus olhos gastos

Pedro Cabeça
___________________


As palavras...secam-se
E os mares inundam o meu sentir
Neste balbuciar diálogo maresia e alma.

Descanso apenas na poeira do olhar...
E bebo um pouco das minhas lágrimas
Nesta sede de não ouvir-te...

Hoje...talvez tenha vivido para lá do eu
Amanhã...quem sabe o sol, tardará em acordar
E a cabeça será um nó de dúvidas soltas...imensas!

Escrevo-te...em tinta invisível...
Como a transparência deste amar estúpido
Mas fiel de abraços ...

Logo...mais logo...direi apenas
Conhecer-te...no restante do amor
Que deixaste...naquela gota de chuva...

Ainda enleio...ou carícia da tempestade
Nuvem opaca e vento traição
Ah! e esboças sorrir deste apelar...

Entende...mesmo que não entendas
Que amar é o outro lado da montanha
Chamada "felicidade"...familiar do rio esperança!

by OUTONO - in MOMENTOS - 2008
__________________________________________

 

Com um grande obrigada e um grande abraço a todos os que aceitaram o desafio

 e gostam de escrever, por escrever

e de sentir, porque sim .

 

ACCB

 

-

 

escrito no papiro por ACCB às 23:51
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Sexta-feira, 4 de Junho de 2010

poemas alheios

 

 

Na natureza do meu destino...

Apenas tenho de me preocupar com a portagem...

Palavra ousada da minha alma... Cativo de mensagens ...

Sedento de sóis ... Calendários sem luas...

E um olhar doce... Maresia matinal...

Perfume do meu respirar... ... ... ...

 

Antes de partir...na minha bagagem ...

de folhas por escrever...

 

aconchego um rio de tinta azul...e um bálsamo carente...

 

------

José Luís Outono

 

-----------

escrito no papiro por ACCB às 23:19
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De Perfil

Sobre mim

Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “ A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” online

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