Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

A ultima Noite de Maio

 

PARA LER AO SOM DA MÚSICA EM PÉ DE PÁGINA :-)

 

 

 

Ele há noites assim,  como esta que corre lá fora, por entre os dedos do fresco que vem do mar.

Na esplanada, vê-se o brilho de um cigarro que se acende no prazer que tiram dele e, as vozes não são altas, mas serenas como o rio que corre ao lado.

A temperatura convida a ficar.

O dia foi longo e quente, feito no meio de teias que se entrelaçaram e desafiaram a imaginação...

Sabe bem a noite, a ultima noite de Maio.

 

Um homem escrevinha um papel, não sei que lhe vai na alma...É o homem do cigarro que brilha em contraste com o leito negro do rio.

Levanto-me e vou até à margem debruçada em pedra, sobre a água...

Deixo-me ficar. O cabelo solta-se na brisa da noite...

Volto e passo perto, tão perto que tenho tempo para ler o que escreve:

" O sol que já caiu. Não há brisa. O Douro ao fundo, quieto, e as gaivotas, ainda. As pontes caladas. As cidades que escoam, devagar. Namorados que olham e se tocam. E eu."

 

Sobressalto-me. Surpreende-me o olhar que fixo na sua escrita. Olha-me  e sorri sem deixar fugir o espanto que me cai dos olhos.

-Desculpe, - balbucio envergonhada

- Não faz mal... escrevinhava a melancolia, a falta das presenças ausentes...

 

- É, está uma noite quente... - respondo  enrolada na minha própria atrapalhação e nos passos que tento dar e não avançam, como quando para um tango são precisos dois e há um só.

 

- A ultima de Maio. - sorri de novo.

 

..............

ACCB

 

 _____________________________

 

 

De J.M. Coutinho Ribeiro a 1 de Junho de 2010 às 01:09
 
Surpreendeu-me, sim, a insistência com que a vi olhar o meu papel de toalha de mesa amarrotado, onde rabiscava, ora desenhos, ora palavras, quando levantei os olhos da gaivota que, num último voo, desapareceu a caminho do mar e eu fumava, sim, um cigarro e outro, depois dum jantar que nem me lembro. Era a última noite de Maio, sim, de um Maio que eu pensei de flores e de festa, de celebração e de graça, mas não era. Apanhou-me, assim, furtiva, no meu olhar furtivo e eu, a si, no seu olhar furtivo, olhares que mal se cruzaram, tal a atrapalhação, a minha pelo meu estar só, a sua pela ousadia de olhar tão fixamente o meu estar só, ali, naquela hora em que o rio descia quieto, as pontes se calavam, as gaivotas recuavam, as cidades se esvaziavam. E eu. Ficou o seu breve sorriso, eu dei-lhe o meu, que era também breve, mas um pouco mais triste, de ausências que os beijos dos amantes que estavam à volta sublinhavam de forma teimosa. Quando atravessou a porta de vidro, já não fiquei muito mais tempo. Levei na mão o papel de toalha amarrotado e fui andando num passo dormente como o das gaivotas. À espera do fim de Maio. À espera de não sei quê.
 
___________________
Conceição Castro
Li. Li-vos. Tentei não saborear a espuma, com odor a canela, da última noite de Maio. Tentei não seguir a voz da ave, em mim, que me contava a minha vontade de colorir, de novo, os meus olhos. Tentei não festejar esta minha persistência em acreditar nas madrugadas acordadas e renovadas. Tentei, mas não muito. Olho de frente esta primeira manhã de Junho e sorrio. Li. Li-vos.
_______________________
Lobices O Livro
...noutra mesa ao lado apreciei a cena... e comecei a pensar que esta última noite de maio não me tinha trazido nada ainda... de repente, olhei em volta e senti um silêncio... era isso: “... a calma tinha-se aproximado de mim como não me conhecesse... eu já a conhecia há muito pese embora os grandes momentos em que não a via ou não me encontrava com ela... porém, naquela vez, ela fez de conta que não sabia quem eu era... aproximou-se mansamente e como quem não quer a coisa, saudou-me ao de leve com um leve acenar pela passagem, pelo encontro... não lhe liguei demasiada importãncia mas educadamente correspondi ao seu aceno e sorri-lhe... foi nesse momento que ela olhou para mim e, de chofre, me perguntou: - Porque sorris?... Naquele instante não encontrei resposta mas uns segundos após, saiu-me uma frase lenta e suave: - Porque não haveria de sorrir?... Acho estranho, disse ela: Estás sempre preocupado, cheio de problemas, a tua cabeça é um vulcão, a tua alma desespera, o teu coração bate e os teus olhos não choram... Pois, respondi eu, eu sei mas por vezes caio em mim e entendo que de nada me vale o lamento; por certo que estou errado quando desfaleço e sentado ou deitado me concentro nas agruras da vida; depois penso que a vida é apenas aquilo que dela fazemos, aquilo que dela queremos, aquilo que dela podemos tirar... a vida nada nos dá excepto ela mesma, ou seja, ela se nos entrega numa única vez e após instalada em nós, somos nós mesmos que a gerimos... temos esse poder, o poder de moldar os dias, as horas, os minutos e até mesmo os segundos dos nossos momentos aqui e agora, ontem e, quem sabe senão ela, também amanhã... somos nós que decidimos enfrentar ou não o momento que se nos depara, seja ele bom ou mau... é apenas uma questão de escolha... mas tu não eras asssim, disse-me ela, a calma... sim, eu sei... na verdade, a vida foi tão diversa e tão cheia de coisas e coisas que houve vezes em que não te consegui enfrentar ou mesmo aceitar e desesperei... porém, houve também momentos em que soube que me podias ajudar... por isso te sorri agora... sei que me podes inundar e tornar-me pleno de mim mesmo e conceder-me ainda mais a capacidade de me dar ainda mais do que já tentei... sei que me ajudarás... porque me trazes a sabedoria, a sensatez, a alegria, a ternura de me saber feliz ao sentir que amo, que o caminho que percorro é o único que me pode serenar, o único que me pode pacificar, a caminhada plena para amar... e, com amor, se ama e com amor se perpectua a nossa vida, mesmo para além da morte... por isso, hoje, te sorrio por saber o quanto amo quem amo, quem me dá a plenitude da serenidade, num amar terno e seguro, forte e puro, real que de tão real, a ti o juro...”
 
______________________
 
Menina Marota
A última noite de Maio. Quantas últimas noites já por nós passaram?
Amanheceu. Do outro lado da cama, o lençol bem esticado revela a falta de um corpo que o ocupasse. O teu.
O frio da manhã, que se pressente quente, eleva-se do teu lado da cama, como fumo do cigarro que já acendeste, quando levo o café à cama onde dormes
desde o dia em que de mim o teu olhar fugiu, numa última noite em que os nossos braços se tocaram numa despedida e noutros te albergastes, indiferente à minha dor.
Voltaste, é certo.
Acompanhado da doença que dorme contigo. E do cheiro da outra que ainda pressinto no teu corpo.
Voltaste uma noite. Seria a última de Maio?
O teu olhar frio e triste pedia também o que os teus lábios murmuraram… "Toma conta de mim… Não me abandones, por favor. Só a ti tenho…"
Já lá vai uma década.
Para mim cada noite é a última de Maio.

Porque há noite que não se esquecem... e este texto trouxe-me memórias antigas mas presentes em cada novo amanhecer…
_______________________
 
Júlia Moura Lopes
Naquela última noite de Maio, a realidade foi maior que a verdade, meu amor. Somos mais do que o sol e do que o mar
e em nenhuma metáfora cabemos - mesmo quando dizemos - eu sou a música, tu és o luar.

Com cadeias de papel nos unimos, em nosso nome jurámos, pelas cascas dos frutos bebemos, de mel silvestre nos alimentámos.
De fora, sempre ficou algo que nos próprios sentimentos já não coube..e um gosto que nos indicou o que a boca já dizer não sabe.
Entre as coisas, as palavras e a sua mudez, paira a irrealidade de que nos fizemos.
E nem uma só vez foram verdade as palavras de adeus que nos dissemos.
______________________________
 

 José Luís Outono

 

....sabe ....????? Está uma bela noite!!!!!
....Sei...sei que a noite é sempre bela, quando o luar me faz o favor de discutir comigo...a ânsia de um acordar lento...
....Mas ainda não adormeceu....e, já fala em acordar...
....quem escreve....antecipa sempre um pouco o respirar que lhe vai na alma...ou caso contrário...a escrita não acontece...
....está a escrever um desabafo?... Ver mais
....não ...estou a escrever um .....desabafo....é isso...obrigado!
...não me agaradeça...estou habituada a ouvir...
...chama-se...???
....mulher cansada...numa noite ...entre o passar do calendário...e a gaiatice de molhar os pés no rio...
....E o amigo chama-se...???
....viajante sem destino...sem almejo...apenas olheiro de sombras....a que chamo vida....e obrigado por me chamar amigo....é a primeira vez...nesta guerra humana que me tratam bem!!!!!!
...esqueça...posso sentar-me ????
...pode...mas não tenho novelas para contar...
...diga-me apenas...como define o Amor?
...O Amor.....o seu olhar coragem capaz de cativar um defunto em fila de espera porque o cemitério está cheio...
...O Amor para si é apenas isso????
....sabe...estou há muito habituado a pequenas gotas...que fazem a diferença entre ser ou não....OBRIGADO...posso retribuir?????
...sim.....
....AMIGA!

__________  

 

escrito no papiro por ACCB às 23:59
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3 escribas:
De J.M. Coutinho Ribeiro a 1 de Junho de 2010 às 01:09
Surpreendeu-me, sim, a insistência com que a vi olhar o meu papel de toalha de mesa amarrotado, onde rabiscava, ora desenhos, ora palavras, quando levantei os olhos da gaivota que, num último voo, desapareceu a caminho do mar e eu fumava, sim, um cigarro e outro, depois dum jantar que nem me lembro. Era a última noite de Maio, sim, de um Maio que eu pensei de flores e de festa, de celebração e de graça, mas não era. Apanhou-me, assim, furtiva, no meu olhar furtivo e eu, a si, no seu olhar furtivo, olhares que mal se cruzaram, tal a atrapalhação, a minha pelo meu estar só, a sua pela ousadia de olhar tão fixamente o meu estar só, ali, naquela hora em que o rio descia quieto, as pontes se calavam, as gaivotas recuavam, as cidades se esvaziavam. E eu. Ficou o seu breve sorriso, eu dei-lhe o meu, que era também breve, mas um pouco mais triste, de ausências que os beijos dos amantes que estavam à volta sublinhavam de forma teimosa. Quando atravessou a porta de vidro, já não fiquei muito mais tempo. Levei na mão o papel de toalha amarrotado e fui andando num passo dormente como o das gaivotas. À espera do fim de Maio. À espera de não sei quê.
De indeterminadamente a 10 de Maio de 2013 às 10:25
... 3 anos passados sobre esta doce troca de palavras com que todos os intervenientes se brindaram, num silêncio cúmplice ou num alarido de afectos... suaves de qualquer forma numa amizade que perdura para além das calmas e últimas noites de Maio...
... foi bom reler...
(lobices)
De lobices a 9 de Maio de 2016 às 10:38
...giro
... saudades que tenho do meu indeterminadamente...

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Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “ A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” online

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