Segunda-feira, 26 de Junho de 2017

Paris , o pintor de rua e eu

 

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 Paris Fotografia de Amália Simão

 

Não foi por acaso que parei por ali.
Se eu tivesse dinheiro suficiente comprava-lhe os quadros todos só para olhar demoradamente as expressões que ía pintando. Como se estivessem vivas e tivesse de escrever um livro sobre cada uma delas.
Não sei o que fazia às tintas quando as tocava com os pincéis
e as colocava no sítio na tela... Como sabia o sítio de cada uma delas?
Como tinha aquele homem da tela aquele ar velho e triste, atento à leitura do jornal... e quase que lhe ouvia a leitura do mesmo, o respirar lento de quem já só gasta o tempo com o que lhe dá prazer e não lhe rouba nada.
Sentei-me ali, escondida num chapéu que não era meu, uma gabardina como se fosse Inverno... Mas não era,... até as luvas calçara para que não me vissem e deixassem imaginar os livros todos que podia escrever com cada um dos quadros a que ele ía dando vida....
A pintura é uma literatura com imagem a cores ... não é?...
ACCB

escrito no papiro por ACCB às 22:16
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Sábado, 24 de Junho de 2017

O temporal esta noite........Tormenta

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A noite tem sido longa.
Como desde cem anos
de chuva,
de uma respiração enfurecida
proveniente de um fundo de vertigem nocturna,
de um cântaro vermelho
ofegando na terra,
o vento há desatado sua tempestade violenta
sobre o vou anelante da ilustro
efemera, sobre as fatigadas necessidades
e tu e eu, na colina
mais alta,
no canto de nossos dois silêncios,
abraçados ao tempo do amor, desvelando-nos.
Deixa que o vento morda sobre o vento.
Eu te fecharei os olhos.

 

Elvio Romero (Escritor Paraguaio)

escrito no papiro por ACCB às 01:55
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Para ti

 



“Para ti criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como... o florir das ondas ordenadas”


Sophia de Mello Breyner

escrito no papiro por ACCB às 01:49
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Engolir o Universo



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O que é isso do Universo? Já acho o Mundo tão grande que não consigo abarcar o que seja o Universo....é como ganhar o euro milhões,... um enorme euro milhões... nunca saberia contar tanto dinheiro.


E no entanto, por vezes, sinto-me cheia de cansaços, os todos que há no Mundo, cansaços passados, presentes e o peso dos futuros, como se o Universo se tivesse encostado todo à minha nuca e eu estivesse prestes a desitir da posição de o perceber, olhando atentamente para baixo quando afinal ele está todo por cima e à volta.


E se eu fosse mesmo feita de pedações de estrelas?... Juro-vos que acredito que sou. Que fraqueza.... apenas pedacinhos de estrelas, pedacinhos incompletos. E que fazer? Seguir sempre a estrada que o caminho faz-se caminhando, repetindo gestos, ideias, ideias felizes, súbitas mas por isso mesmo felizes... e depois voltar ao razoável, à rotina, ao que tem de ser para além do Universo e num espaço ínfimo nele.


E seu eu engolisse o Universo como Cronos , engolia os filhos? Cronos e o Tempo engolem o que geram...
Mas eu nem gerei o Universo,... só virando-me do avesso e abarcando-o todo como um espaço que aumenta ao virar o direito para dentro e o interior para fora....mas entretanto o tempo já me devorou.
Ao virar o Direito para dentro... e reparo quantos séculos de humanidade, quantas lutas e quantas perdas, quantas guerras e quantas mortes nesta palavra.

Quantos pedacinhos de estrela se estilhaçaram para que a palavra Direito que me levou a esta evasão de contemplar o Universo pudesse existir?


Direito não envolve autoridade ou será que envolve? Envolve luta, sangue suor e lágrimas e é por isso que todos querem lutar, ser livre ou morrer por ele. E é por isso que existem as convenções, as cartas de direitos, os diplomas legais....para que tudo não se repita....e repete.


Há anos que faço “isto”, há anos que visto a beca, há anos que empunho a espada... e que teria acontecido se eu não tivesse aceite a espada?
O Universo continuaria a existir, os movimentos de rotação e traslação da Terra continuariam a existir,... as estrelas planetas e cometas continuariam sobre a minha nuca todas as noites que tento proteger direitos e o Direito.... como é assim e agora e será sempre. Ámen.


Será que algum dia aceitei a Espada ou apenas a resgatei e empunhei?
Então, engulo o Universo e sigo em frente, como quem engole um sapo, como quem percebe que tudo continuará encostado à nuca, como quem sabe que entre a espada e a parede, escolherá sempre a Espada.

 

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 01:42
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Segunda-feira, 12 de Junho de 2017

Para o raio que os partisse

( Quem souber ler que leia...)

 

 


Ai o sapatinho,... vá lá, de salto alto, não muito por causa das horas de espera, mas de ponta fina.
A mala,... a mala pode não ser da mesma cor mas tem de fazer pandan com a saia, a meia , o salto, o casaco... enfim... até os brincos, se levares.


Não te esqueças do sorriso, aquele de cerimónias oficiais que tem de ser bem colocado no meio da cara ainda que os olhos digam o contrário. Não entoes mal o "como vai?", principalmente não deixes transparecer que querias que fossem para o raio que os partisse.


É assim, oficialmente, nas cerimónias oficiais todos são amigos, todos são simpáticos , todos se dão bem e todos são cordeais.


Se podes dizer o que pensas realmente?
Podes mas, não estragues a cor do saia e casaco, nem a marca da mala que decidiste usar. Vê lá não pareça mal e não fiquem com outra imagem de ti.
De um momento para o outro podes transformar-te na bruxa da história, melhor, podes parecer a bruxa da história em vez de o seres realmente.


Mas se é para te irritares irrita-te e irrita-te na hora menos esperada, da forma menos esperada, com a fúria toda que possas utilizar e derrubar o que te irrita.
Afinal és a bruxa da história.


Nunca digas que isso pode acontecer, faz com que seja surpresa e simplesmente demolidor.
Se for preciso o tom pérola do tailleur mudar para vermelho rubro, deixa mudar, se o salto do teu sapato passar a ter mais 5 cm, deixa subir,... e se os teus olhos devidamente maquilhados para a ocasião decidirem deitar lume, transforma-te em dragão,... mas ganha a causa.


Se é para te irritares, arrisca tudo, vai a jogo, mas não percas.


ACCB

 

 

escrito no papiro por ACCB às 21:57
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Sábado, 3 de Junho de 2017

Eu sou a tempestade

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escrito no papiro por ACCB às 18:19
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fotos antigas a 3 de Junho de 2017

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Eu gosto das fotos antigas...

Tinham sempre as calças dos homens vincadas e as mãos das senhoras muito quietas no regaço. Os cabelos nunca tinham vento nem aragem e o baton cabia sempre dentro das linhas dos lábios.
Todos estavam compenetrados e mostravam de si o ar mais airoso e mais perfilado.


Lembro-me das fotos do meu avô com o bigode aparado e um braço descansado na mesa com toalha de renda. Um ar de Eça... era o que eu achava. Tinha uma bengala mas sabíamos que era só para a fotografia ficar com um cabo de prata.


As fotos antigas punham as crianças sentadas no chão, à volta, como se nunca fossem crescer ou se crescessem deixassem de poder usar as saias de folhinhos e rendinhas e os calções de suspensórios impecáveis com que iam à missa no dia de ver a Deus.


Gosto das fotos antigas e de mim nelas. Da família em redor com ar sério e numeroso, ... e gosto principalmente do gato... o gato que me tira a atenção da foto e com quem interajo insistentemente numa dessas fotografias, ... é só o que nela existe, eu e o gato.
Todos estão sérios, pertencem a um Mundo quieto e eficaz, todos estão engravatados e calçaram os melhores sapatos. As senhoras vestiram-se a rigor e foram ao cabeleireiro... para a foto de família...
Tinha eu logo de estragar a foto,... eu e o gato... eu e o vestido de ver a Deus, o gato a pedir festas e eu a dar-lhe todas as festas do Mundo.
A foto mexe-se e vive.... Tudo mais está estático.


E quando escolheram a foto,... a que iria ficar para a posteridade, a minha avó teria dito do seu ar de matriarca:
- Quero esta, tem gente a sério.

 


( PS: deve ser por isso que tenho o nome dela :-) )


ACCB

escrito no papiro por ACCB às 18:15
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Quinta-feira, 1 de Junho de 2017

Depus a Máscara

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Depus a Máscara ( Álvaro de Campos )

 


Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

escrito no papiro por ACCB às 18:21
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De Perfil

Sobre mim

Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “ A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” online

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