Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

Um texto que dá que pensar hoje.........

 

 

amanhã...quando quiserem. Bonito

 

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O Amor é um Acidente, uma Renúncia, um Hábito, uma Maldição

O amor é um acidente.

Eu estava sentada no regaço de uma mulher de cobre, uma escultura de Henry Moore, e Bill debruçou-se sobre mim e beijou-me nos lábios. E de repente eu amava-o. Amava-o e só isso importava.

Reparei nas mãos dele, mãos de pianista. Mãos preparadas para o amor. Ainda hoje gosto de lhe ver as mãos enquanto folheia um livro, enquanto lê um jornal.

As mãos dele envelheceram, envelheceram a apertar outras mãos, milhares de outras mãos, a jogar golfe, a assinar autógrafos e documentos importantes.

Envelheceram, sim, mas continuam belas. Continuam a excitar-me.O amor é uma renúncia. Amar alguém é desistir de amar outros, é desistir por esse amor do amor de outros.

Eu desisti de tudo. A partir desse dia dei-lhe todos os meus dias. Entreguei-lhe os meus sonhos, os meus segredos, as minhas convicções mais profundas. Não me queixo!Não sou ingénua nem estúpida.

 

Quando digo que o amor é uma renúncia, quero dizer que foi assim para mim. Para Bill foi sempre uma outra coisa. Eu sabia que ele reparava noutras mulheres, e que outras mulheres reparavam nele.

Um homem feio, com poder, é quase bonito. Um homem bonito, com poder, é quase um Deus.

Apesar da minha educação cristã, ou por causa dela, sempre me recusei a viver sujeita à ameaça do pecado. As grandes indústrias vêm tentando convencer-nos de que é possível tirar o veneno ao prazer e ficar apenas com o prazer: café sem cafeína, cerveja sem álcool, cigarro sem nicotina - amor platónico.

Quanta estupidez.

Quem bebe café procura a exaltação da cafeína.

Quem pede uma cerveja numa tarde de sol quer refrescar o corpo, sim, mas também quer soltar o espírito.

Se é para pecar quero o pecado inteiro.

Bill teve o seu castigo. Tivemos os dois.

Foram dias difíceis, foram noites ainda mais difíceis, mas passaram. Uma manhã acordei e já não tinha lágrimas. Noutra manhã acordei e já não o odiava.

Finalmente acordei e estava de novo abraçada a ele.

O amor é um hábito. Como acham que cheguei até este dia?

Foi o amor que me trouxe. Maldito seja.

 

José Eduardo Agualusa, in 'A Educação Sentimental dos Pássaros '

escrito no papiro por ACCB às 20:18
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Para Fazer o Retrato de um Pássaro

 

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(JACQUES PRÉVERT*, trad. Eugénio de Andrade)

Pinta primeiro uma gaiola

com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres...
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.

 

Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas

Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
a poeira do sole o ruído dos bichos entre as ervas no calor do verão
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar

então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

* Jacques Prévert (França, 1900-1977)

escrito no papiro por ACCB às 20:13
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Poema pouco original do medo

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O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
-
Alexandre O'neill
-

escrito no papiro por ACCB às 19:39
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Poema de Jenny Londoño

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Vengo desde el ayer, desde el pasado oscuro y olvidado con las manos atadas por el tiempo, con la boca sellada desde épocas remotas.

Vengo cargada de dolores antiguos, recogidos por siglos, arrastrando cadenas largas e indestructibles.

Vengo desde la oscuridad del pozo del olvido, con el silencio a cuestas, con el miedo ancestral que ha corroído mi alma desde el principio de los tiempos.

Vengo de ser esclava por milenios, esclava de maneras diferentes, sometida al deseo de mi raptor en Persia, esclavizada en Grecia, bajo el poder romano.

Convertida en vestal, en las tierras de
Egipto, ofrecida a los dioses de ritos milenarios, vendida en el desierto o canjeada como una mercancía.

Vengo de ser apedreada por adúltera en las calles de Jerusalén, por una turba de hipócritas, pecadores de todas las especies, que clamaban al cielo mi castigo.

He sido mutilada en muchos pueblos para privar mi cuerpo de placeres y convertida en animal de carga, trabajadora y paridora de la especie.

Me han violado sin límite, en todos los rincones del planeta, sin que cuente mi edad madura o tierna o importe mi color o mi estatura.

Debí servir ayer a los señores, prestarme a sus deseos, entregarme, donarme, destruirme, olvidarme de ser una entre miles.
He sido barragana de un señor de Castilla, esposa de un Marqués y concubina de un comerciante griego, prostituta en Bombay y filipinas y siempre ha sido igual mi tratamiento.

De unos y de otros siempre esclava, de unos y de otros dependiente, menor de edad en todos los asuntos, invisible en la historia mas lejana, olvidada en la historia más reciente.

Yo no tuve la luz del alfabeto durante largos siglos. Aboné con mis lágrimas la tierra que debí cultivar desde mi infancia.

He recorrido el mundo en millares de vidas que me han sido entregadas una a una.

Y he conocido a todos los hombres del planeta: los grandes y pequeños, los bravos y cobardes, los viles, los honestos, los buenos, los terribles.

Mas casi todos llevan la marca de los tiempos.
Unos manejan vidas como amos y señores, asfixian, aprisionan, succionan y aniquilan.

Otros manejan almas: comercian con ideas, asustan o seducen, manipulan y oprimen.

Unos cuentan las horas con el filo del hambre, atravesado en medio de la angustia.

Otros viajan desnudos por su propio desierto y duermen con la muerte en la mitad del día.

Yo los conozco a todos.
Estuve cerca de unos y de otros, sirviendo cada día, recogiendo las migajas, bajando la cerviz a cada paso,
cumpliendo con mi karma.

He recorrido todos los caminos.
He arañado paredes y ensayado cilicios, tratando de cumplir con el mandato de ser como ellos quieren, mas no lo he conseguido.
Jamás se permitió que yo escogiera el rumbo de mi vida.

He caminado siempre en una disyuntiva, ser santa o prostituta.
He conocido el odio de los inquisidores que a nombre de "la santa madre iglesia" , condenaron mi cuerpo a su sevicia o a las infames llamas de la hoguera.

Me han llamado de múltiples maneras : bruja, loca, adivina, pervertida, aliada de Satán, esclava de la carne, seductora, ninfómana, culpable de los males de la tierra.

Pero seguí viviendo, arando, cosechando, cosiendo, construyendo, cocinando, tejiendo, curando, protegiendo, pariendo, criando, amamantando, cuidando,
y sobre todo amando.

He poblado la tierra de amos y de esclavos, de ricos y mendigos, de genios y de idiotas, pero todos tuvieron el calor de mi vientre, mi sangre y mi aliento, y se llevaron un poco de mi vida.

Logré sobrevivir a la conquista brutal y despiadada de Castilla en las tierras de América, pero perdí mis dioses y mi tierra y mi vientre parió a gente mestiza, después de que el castellano me
tomara por la fuerza.

Y en este continente mancillado proseguí mi existencia, cargada de dolores cotidianos.

Negra y esclava en medio de la hacienda, me vi obligada a recibir al amo cuantas veces quisiera, sin poder
expresar ninguna queja.

Después fui costurera, campesina, sirvienta, labradora, madre de muchos hijos miserables, vendedora ambulante, curandera, cuidadora de niños y de ancianos, artesana de manos prodigiosas, tejedora, bordadora, obrera, maestra,
secretaria o enfermera.
Siempre sirviendo a todos, convertida en abeja o sementera, cumpliendo las tareas más ingratas, moldeada como cántaro por las manos ajenas.

Y un día me dolí de mis angustias.
Un día me cansé de mis trajines, abandoné el desierto y el océano, bajé de la montaña, atravesé las selvas y confines y convertí mi voz dulce y tranquila
enbocina del viento, en grito universal y enloquecido.

Y convoqué a la viuda, a la casada, a la mujer del pueblo, a la soltera, a la madre angustiada, a la fea, a la recién parida, a la violada, a la triste, a la callada, a la hermosa, a la pobre, a la
afligida, a la ignorante, a la fiel, a la engañada, a la prostituta.
Vinieron miles de mujeres, juntas, a escuchar mis arengas.

Se habló de los dolores milenarios, de las largas cadenas que los siglos nos cargaron a cuestas.

Y formamos con todas nuestras quejas un caudaloso río que empezó a recorrer el universo, ahogando la injusticia y el olvido.

El mundo se quedó paralizado. ¡los hombres sin mujeres no caminan!

Se pararon las máquinas, los tornos, los grandes edificios y las fábricas, ministerios y hoteles, talleres y oficinas, hospitales y tiendas, hogares y cocinas.

Las mujeres, por fin, lo descubrimos. ¡somos tan poderosas como ellos y somos muchas más sobre la tierra ! ¡ más que el silencio y más que el sufrimiento ! ¡ más que la infamia y más que la
miseria !

Que este canto resuene en las lejanas tierras de indochina, en las arenas cálidas del África, en Alaska o en America latina, llamando a la igualdad entre los géneros, a construir un mundo solidário -- distinto, horizontal, sin poderíos -- a conjugar ternura, paz y vida, a beber de la ciencia sin distingos.
A derrotar el odio y los prejuicios, el poder de unos pocos, las mezquinas fronteras.
A amasar con las manos de ambos sexos el pan de la existencia.

escrito no papiro por ACCB às 19:36
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016

Tons de escrita

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Tens de ver se os teus olhos têm reflexos verdes ou se por acaso será desse teu brilho na voz . Será que é porque parece que quando chove à tua volta, o chão fica daquele verde dourado que cobre os mantos das damas, de noite, pelos castelos? Ou saíste de um livro em que os contos de fadas têm personagens reais?
Olha deixa lá, não penses mais nisso, parece-me mesmo que é do reflexo verde do brilho do teu olhar.
Também podia ser dessa tonalidade azul que dás à voz ou do vermelho dos gestos que te caracteriza,.... Sinceramente não sei. Não sei, assim como não sei porque ponho reticências a seguir às virgulas quando penso o que escrever a seguir... porque, isto de escrever é só quando não se pensa, sai assim, de repente, como uma ideia que não se deve conter, como quando de noite temos ideias brilhantes e a seguir adormecemos. Não voltam,.... perderam-se nos sonhos.
Tudo tem uma razão, uma causa, uma sequência e a tua é a do reflexo. Às vezes apetece-me espreitar do outro lado, mas encontro sempre o mesmo verde, o mesmo azul e o mesmo vermelho, como uma bandeira que acenas e com a qual dizes que te recusas a seguir o mesmo trilho já trilhado...
Tens de ver se os teus olhos têm reflexos verdes....

 

21.11.2014

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 16:11
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016

Super Lua




 

Olha, está na hora de dormir dizem as regras... E eu que sempre tentei quebrá-las agora zelo pelo seu cumprimento. Dormir... que perda de tempo.
Até que tenho sono mas tenho mais vontade. Vontade de ficar à espera da trovoada de ontem que não passa mais hoje e que se passar já será outra. Vontade de escrever e atirar as palavras ao papel, à folha, ao teclado ao que quer que seja mas que me deixem quebrar as regras.
Passo a vida a zelar pelas regras e pelo seu cumprimento e pelo respeito que lhes é devido ... e entre este zelar estonteado e teimoso perco-me pelas palavras e encontro-me em rostos que não conheço...
Olha, sabes? dizem que está na hora de dormir...mas eu não quero. A noite é boa companheira. De noite notam-se os contornos das sombras que de dia se esbatem à luz do sol ou nas cortinas de chuva.
Na hora de dormir desperto ...é como se o apelo da escrita me libertasse e amanhã é segunda feira. Nunca gostei da segunda feira, ou gostei? Já não me lembro. Não gostar da segunda feira é uma regra e eu vivo rodeada de regras.
Está na hora de dormir dizem as regras....e o espírito das regras o que diz???

14.11.2015

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 01:30
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2016

No dia 11.11.2016

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"Que a boa sorte te persiga e que teu coração se preencha com tudo o que desejares.

Que vejas os filhos dos filhos dos filhos dos teus filhos.

Que não conheças nada além da felicidade, deste dia em diante."

– (Essa é uma Bênção Celta).

escrito no papiro por ACCB às 16:45
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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016

10.11.2016

 

escrito no papiro por ACCB às 15:54
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De Perfil

Sobre mim

Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “ A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” online

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