Domingo, 13 de Março de 2016

Dois homens à beira rio

 

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-Tens espaço? Espaço, espaço, tempo, atenção....silêncio?
-Silêncio.....................
-Podes ou não podes ouvir?

-Eu sei lá se tenho espaço! Não estou para aqui calado? À espera que aconteça ou se faça dia? Diz ,... senta-te e diz ou diz de pé que também pode ser e sempre o espaço é menor.

-O que eu quero é que me respondas se tens espaço, se tenho tempo, se queres ouvir.

-Ora diz, tenho um cigarro para fumar que ainda não perdi o vício. Escuto enquanto fumo.

-Ora não pode ser. Ou escutas ou fumas que se fumas o espaço é do cigarro e da fumarada que fazes com ele.

-Queres ver que agora não posso fumar?!

-Bem eu só quero saber se tens espaço

Fez-lhe o gesto com a mão. A do cigarro que a outra estava descansada em cima dos joelhos dobrados até ao queixo. A noite estava fria e o som do rio ficara para trás na maré enquanto descia. Agora ficava lá ao fundo e ía jurar que os peixes tinham abalado todos em mar chão.

Sentou-se o amigo e com ele o silêncio enorme da noite que nem a maré cortava.

Continuou o cigarro, iria durar até que o espaço existisse . Percebeu que era só espaço para estar, que era só para escutar a presença, que nada ía sair dali.
Mas de repente a voz do amigo cortou a noite.

-Estou sem sono e acho que não vou dormir mais. Perde-se o tempo na almofada. Se estivesse muito frio ainda me deitava e adormecia enrolado.Mas assim,... com este ar de Primavera não me dá para dormir.Ando atrasado na vida. Tenho de viver já ou esqueço-me. Sabes? A gente cresce e envelhece-nos o corpo. depois começamos a confrontar-nos com aquilo com que os outros já se confrontam Um dia destes é a morte. Tu não tens medo de morrer? Não achas que perdes muito tempo a dormir?

Acendeu a ponta do cigarro sem o olhar e engoliu o mundo. Olha agora aquela hora de não pensar em nada vem falar-lhe da morte. Não lhe respondeu e aguardou mais uma saraivada de dúvidas.

-Ando cá a pensar que tenho muitos livros para ler ainda e umas tantas viagens para fazer. Não tenho tempo de dormir. Isto não dá com nada passar os dias a trabalhar que nem um inútil como se fosse resolver todos os males do Mundo. Vou mas é aprender o que ainda não aprendi e viver que se faz tarde. Comprar umas viagens com tudo incluído e fazer da noite dia. Não quero saber de mais nada que tenho o fim da Vida para dormir e já se faz tarde. Passei a vida a trabalhar para ser e não tenho nem sou. Não durmo mais. Tenho muita Vida para viver.

Enroulou-se no que ouvira. Fumou o cigarro até a beata ficar no topo. Viver,... não dormir,.. ir por aí como os peixes tinham ido com a maré vazia...pelo rio abaixo. lançou o resto do cigarro ainda acesso projectando-o com o polegar. O risco de fogo mergulhou no Tejo e então perguntou ao amigo olhando o infinito.
- Tens espaço?

 

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 17:28
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Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “ A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” online

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