Quinta-feira, 18 de Junho de 2015

Saramago - 18.6

 

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Há um ano a LUSA escrevia assim:

Saramago: cinzas já foram depositadas junto à casa dos Bicos Cerca de 300 pessoas assistiram hoje à cerimónia de deposição das cinzas de José Saramago debaixo de uma oliveira transplantada da sua aldeia natal junto à Casa dos Bicos, futura sede da fundação com o nome do escritor.Exactamente um ano depois da sua morte, a 18 de Junho de 2010, e à mesma hora a que morreu, 11h30, iniciou-se a cerimónia de homenagem ao Nobel da Literatura português, no Campo das Cebolas, em Lisboa, ao som dos tambores da orquestra de percussão Tocá Rufar.Seguiu-se uma intervenção do professor e cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho, que leu um texto de Saramago sobre a cidade de Lisboa, intitulado "Palavras para Uma Cidade".À esquerda do estrado, Pilar del Río, viúva do escritor e presidente da Fundação José Saramago, ouvia com ar enlevado e rosas brancas na mão, e a multidão escutava em silêncio, protegendo-se do sol do fim da manhã com os livros do autor de "Memorial do Convento" trazidos de casa."Basta que Lisboa seja o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada, sem perder nada da sua alma", leu Vaz de Carvalho.Lídia Jorge participou na homenagemA escritora Lídia Jorge tomou depois à vez a palavra para, em tom emocionado, partilhar com os presentes uma mensagem para Saramago, intitulada "Palavras para Ti"."Tu não serás as cinzas que Pilar vai depositar sob a oliveira (...), serás os milhares de páginas que escreveste (...) De resto, nós queremos que este momento seja alegre, que sejas seiva desta cidade", afirmou."Quanto a nós, enquanto formos vivos, recordar-te-emos sempre. Não temos outra eternidade para te dar", rematou.Em seguida, Pilar del Río colocou as cinzas junto às raízes da oliveira, escolhida pelo presidente da junta de freguesia da Azinhaga do Ribatejo por ser aquela onde ele imaginava que pudesse estar o lagarto verde que Saramago descreve no seu livro "As Pequenas Memórias".As cinzas foram cobertas por terra de Lanzarote, colocada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa no canteiro onde se encontra plantada a árvore, junto a um banco de mármore e ladeada de duas placas de pedra embutidas no chão, lendo-se na primeira, do lado esquerdo, "José Saramago 1922-2010" e na outra a última frase do romance "Memorial do Convento": "Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia". Jornal Expresso - on line - 12:44 Sábado, 18 de Junho de 2011


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ADELINA BARRADAS DE OLIVEIRA - Análise do texto
Todo o enunciado verbal retira Saramago da inércia da nova condição de falecido, para elevá-lo à condição de sujeito histórico presente na ideia de cada um de nós e eternamente vivo nas nossas memórias e nas dos vindouros.

Num ritual fúnebre despido de religiosidade, há uma imagem quase espiritual que é criada através da descrição da cerimónia de deposição das cinzas no local onde o escritor acreditava haver um lagarto verde na sua cidade perto da Casa dos Bicos.

Desde as presenças - a mulher, os amigos, a escritora Lídia Jorge, - as estilizações - "que Lisboa seja o que deve ser (...) sem perder nada da sua alma",- as alusões - "por ser aquela onde ele imaginava que pudesse estar o lagarto verde que Saramago descreve no seu livro "As Pequenas Memórias, - todos os enunciados escolhidos, procuram o mesmo sentido e a mesma elevação que não deixa de ser atingida.

Existem ainda outros exemplos de como a narração escorre por entre as imagens, que não o são mas, conseguem ganhar forma ao chegar ao enunciatário e tanto mais, quanto mais sensibilidade e conhecimento tiver este do objecto do corpus.

A coerência manifesta-se na coesão textual conseguida através de determinados tempos verbais, favorecendo principalmente o pretérito perfeito e os advérbios de tempo.


"Tu não serás as cinzas que Pilar vai depositar sob a oliveira (...);
que este momento seja alegre;

Não temos outra eternidade para te dar", rematou.- metáforaEm seguida, Pilar del Río colocou as cinzas junto às raízes da oliveira
As cinzas foram cobertas por terra de Lanzarote -


"Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia" .

Quase temos vontade de dizer: - Ámen.

Os efeitos metonímicos como, " ao Nobel da Literatura português, "viúva do escritor" e hiperbólicos como, "serás os milhares de páginas que escreveste", funcionam como dois mecanismos discursivos que cativam o destinatário do discurso mediático, conseguindo para além de informativo ser criativo.

Apela para isso a enunciados presentes na cerimónia (um campo associativo que refere Foucault), que descreve mas, entrelaça de tal forma os enunciados que lhes arranca riqueza para emprestar à escrita.

E, quanto mais caminha para o final e mais metáforas acrescenta -" serás os milhares de páginas que escreveste" ou "não temos outra eternidade para te dar"- mais torna o texto poético e mais foge à linguagem seca dos média.

Rompendo com a lógica, espevita a sensibilidade e a imaginação.

Como analisa Gregolin, as redes de memória possibilitam o retorno de temas a figuras do passado, provocando a sua emergência na memória do presente e uma tentativa de o perpetuar no futuro.

É o que enunciador faz, recorrendo a metáforas como "Quanto a nós, enquanto formos vivos, recordar-te-emos sempre. Não temos outra eternidade para te dar".

Da estrutura do texto fica-nos o "ponto", de que a morte de Saramago foi lembrada 1 ano depois e, num ritual perfeitamente conciliador entre ele e o seu querer, as suas cinzas foram depositadas na cidade de Lisboa a quem escreveu uma verdadeira carta de amor na mensagem que também é referida no texto - "Palavras para Ti".

Há em todo o texto aquilo a que se chama topicalização e nos remete para o título.

Há uma polifonia que sendo característica fundamental na produção dos textos dos média, atinge o pretendido e que se contém quer na homenagem descrita através de um texto narrativo envolto a final em prosa poética, quer no recurso a outros enunciadores, colocando-os dentro do texto e tornando-os enunciados, conforme já referimos e explorámos supra.

Neste texto que se torna belo e acompanha a imagem da homenagem a um homem deste país que se distinguiu na escrita e na forma de estar, o autor move-se pela ilusão de ser o centro do discurso que vai criando com a ajuda quer de quem homenageia, quer de quem é homenageado.

A graça e a leveza das elipses, das metáforas e o marcador argumentativo "não", em volta do homenageado neste pedacinho de texto - "Tu não serás as cinzas que Pilar vai depositar sob a oliveira (...), serás os milhares de páginas que escreveste (...), que sejas seiva desta cidade", emprestam ao texto um efeito estilístico que o tornam cativante e preenchido de sugestões dialógicas.

A partir do terceiro parágrafo, através do uso de um discurso indirecto entrelaçado com o discurso directo contido em aspas, vai-se aproximando do leitor/enunciatário e, numa cultura como a nossa em que Saramago é amado ou odiado, este texto cumpre o papel que a imprensa deve ter - procurar a construção de um consenso em torno de uma figura marcante para a história, a cultura e a literatura do País que é de todos.

Como diz Foulcaut "um texto jornalístico que consiga um alto grau de heterogeneidade discursiva não se deve necessariamente ao número de sujeitos entrevistados. A quantidade torna-se relevante em relação à heterogeneidade dos pontos de vista apresentados."

E o autor deste texto consegue vários pontos de vista, ainda que convergentes, em torno do mesmo sujeito e consegue-o exactamente pelo estilo poético que atinge, usando uma norma diferente na normalidade do discurso mediático.

Através da legitimidade que é delegada ao jornalista pelos outros campos da sociedade, imbuído da sua característica principal que é a mediação, consegue espelhar um sentimento que, a não ser geral, é cultural no sentido de que faz parte da história deste País.

Fica-nos a vontade de ler e reler Saramago.

 

ACCB _- Extrato de trabalho do seminário DISCURSO DOS MÉDIA

 

_ Mestrado de Comunicação Média e Justiça _________


PS:_ A Imagem está precisamente assim para desassossego dos leitores.


__Saramago 18.

escrito no papiro por ACCB às 01:38
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Domingo, 14 de Junho de 2015

Se partires, então, escreve.

 

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Olha, não escrevas muito, sim? Tenho tanto para escrever que se me escoa o tempo para ler. Não escrevas muito porque depois deixo de ouvir a tua voz nas letras e perco os teus sorrisos pelo meio das vírgulas.
Escreve o essencial Aquele que diz tudo sem precisar de desmembrar a ideia. Pode ser uma metáfora, pode ter perfume de glicínia pelo meio, ou o lilás que elas vestem pelas tardes douradas de sol, ... mas não escrevas muito.
Ando tão perdida em escritas que fico sem olhos para te ler... Podias gravar as palavras, podias guardar as ideias não sei em que sistema informático e eu arquivava, e voltava à pasta numa noite sem escrita e sem obrigações.
Se partires e antes de partires, então, escreve-me e escreve tudo.
ACCB

escrito no papiro por ACCB às 00:37
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Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “ A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” online

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