Sábado, 21 de Fevereiro de 2015

Um Limão ao fim da tarde

 

 

"O terrorismo é assim uma espécie de bullying à bomba,... definitivo, sem sentimentos de recalcamento, sem perigo de levar a vitima ao suicídio mas com o intuito de neutralizar os restantes."

 

 

escrito no papiro por ACCB às 18:23
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CARTA A MEUS FILHOS

Jorge de Sena - Sobre os fuzilamentos de Goya

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós.

Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.


Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver.

Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.


Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»


Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.


Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido.

Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.


Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor.

Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.


Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.


Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.


Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão.

Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão?

Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?


Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».


E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

 

 

escrito no papiro por ACCB às 17:33
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015

O Tempo é tão jovem e vive tão pouco...

Tempo.jpg

Quarta feira....é o dia de arrumar a casa e, surpreendentemente é o dia de recomeçar a arrumar a casa. Entrega-se o trabalho de uma semana recomeça o trabalho de uma semana... E pelo meio, os livros, os filhos, os escritos, os amigos, a mãe... a mãe e o tempo que foge nela... a falta de tempo.. o tempo... O Tempo é tão jovem e vive tão pouco...
E às vezes é tão antigo e cai dos nossos olhos...
E cai dos nossos joelhos e não temos como o segurar... Foge-nos e inquietantemente marca-nos...
O tempo é.... tão súbito e à quarta feira é mais súbito ainda.
Se eu tivesse um mecanismo qualquer onde o pudesse travar...suspender quando me desse jeito e olhá-lo nos olhos...perguntar-lhe pelo futuro, pelos livros que ainda não li e quero ler... pelo tempo que quero ter... e não tenho...
E falar-lhe do passado, torná-lo vivo... e tocar as mãos dos que já partiram... ouvir-lhes as vozes em 3 dimensões e não só na dimensão da memória...
O tempo é tão súbito à quarta feira e precipita-se a semana inteira..............

ACCB

 

 

escrito no papiro por ACCB às 22:01
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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2015

Ainda trago todos os cheiros comigo

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MOTE:
Ruy Belo /ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM CRIANÇAS
(....)
Se foste criança diz-me a cor do teu país 
Eu te digo que o meu era da cor do bibe 
e tinha o tamanho de um pau de giz 
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez 
Ainda hoje trago os cheiros no nariz 
(...)

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

____________________

 

O meu País era verde e vermelho e tinha um sol amarelo no meio. Quando era Verão o Sol era tão grande que me fazia franzir os olhos e olhar tudo por um fio de olhar com a mão em pala sobre as sobrancelhas.
Lembro-me bem do cheiro da areia de manhã cedo, porque era de manhã cedo que a areia embrulhada em mar tinha aquele cheiro que entrava pelo nariz dentro e criava espaço para combater as gripes depois, no Inverno.

 E o cheiro do mar chão... com a areia em ondinhas até lá dentro.. dentro, dentro, de tornozelos até ao fundo...

-Não te afastes que a maré está a encher não tarda! - dizia a mãe - vem cá que tens de pôr creme.
- E sinto o cheiro do creme,... ainda hoje não consigo usá-lo no Inverno porque me parece que todos olham e acham que cheguei da praia, que não faço mais nada que chegar da praia, que durmo lá e acordo lá, e os meus pés ganharam algas,... não tarda sonho que sou um peixe.
 

Ficava por ali naquele cheiro misturado à tarde com os pinheiros e as cigarras e esquecia os meses com a cor do meu bibe. O bibe que tinha de andar sempre limpo, sempre impecável, sempre como se ele fosse mais que eu, e eu dentre dele não me pudesse mexer não fosse estragar o vinco ou o laço.
 Esquecia o som do pau de giz que me entrava nos dentes até à alma e me arrepiava tanto que ficava capaz de gritar. E a Maria? A Maria quando ficava a  tomar conta da sala arranhava as unhas no quadro e transformava-se toda num pau de giz... Mas aí gritávamos muito e tapávamos os ouvidos. Às vezes batíamos  a rir com os pés no chão e a sala de aula parecia um enorme teatro em pateada.


Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez... as sapatilhas de ginástica tinham aquele cheiro característico e o palco da escola era escuro para o lado de fora nos dias das representações. Só tinha palmas no fim ou durante se alguém pensava que a hesitação  era o fim.
E o cheiro dos livros novos? Já não cheiram assim os livros da escola, nem os cadernos... Nem as tintas das caixas de guaches, nem os lápis de cor... mas ainda tenho o cheiro na memória e, às vezes passa um perfume com a minha professora da primária lá dentro.

E depois vinha de novo a escola... partia o sabor das sanduíches ao almoço na praia para não subir a ladeira até casa, até porque os amigos ficavam quase todos por lá. E se a mãe levava salada russa ( naquele tempo fazia-se )... não há mais nenhuma igual aquela com sabor a praia e a a maré cheia.
E a fruta comida ao calor a pouco e pouco aos pedaços, fresca da geleira que ía sempre leve para cima. As Bananas que vinham da Madeira e nunca mais trouxeram aquele sabor único, as uvas brancas com sabor a risadas e a projectos para a seguir ao almoço...
os pés a escaldar de corrida  com gargalhadas porque descalços era mais rápido até lá acima


 E até lá acima era tudo, era o ver o Mar daqui de onde se avistava um Mundo enorme  que continuava para além do infinito...

Naquele tempo o meu país era verde e vermelho e tinha um grande Sol amarelo no meio... e ainda hoje trago todos os cheiros comigo... mesmo o daquele perfume que às vezes passa com a minha professora da primária lá dentro.

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 22:04
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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2015

"As memórias e o pó"

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Hoje apetecia-me um texto, uma prosa ou um poema daqueles que trazem lembranças... Não precisava de ser de sorrisos, apenas de partilhas. Podia ser daquelas partilhas silenciosas em que quem confia fala, fala, fala e nós escutamos como se não estivéssemos ali, e nem bulimos para não travar a libertação de pensamentos e de mágoas...

Podia ser um poema, daqueles que escrevemos quando as tardes têm o aroma que nunca nenhuma tarde teve ou voltará a ter, em que a manhã sabe a sol na maré... e o sal é fresco como a água cristalina, em que as tardes cheiram a Verão e a marginal tem tudo menos carros, menos sinais vermelhos, só Sol e mar.

Um poema de amores, um texto de amizade,...o único sentimento que não cobra nada e em que te deitas porque nada se move e tudo é suporte, e tudo é silêncio se precisas ou uma orquestra de gargalhadas se também te faz falta.

Hoje, podia escrever memórias algumas daquelas que provocam tempestades e mudanças e amarram o barco ao cais...
"As memórias são como livros escondidos em pó"....mas ensinam que fica tudo o que ainda faz parte de nós...o mais é pó...um sopro que se desvanece ... fica só o livro escondido para lermos em dias de sol, de silêncios e de esperança.

Olha amiga, este texto é para ti. Não sei se o vais ver como sendo teu. Está escrito. Guarda como um livro escondido em pó. Quando precisares sopra o pó...e lê.
ACCB - 1.2.2015

escrito no papiro por ACCB às 00:35
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Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “ A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” online

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