Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017

Pássaros

 

 

 

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam
movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao
reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
 Ruy belo

escrito no papiro por ACCB às 23:48
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2017

Amigo não é nada disso

a·mi·go
(latim amicus, -i)
adjectivo e substantivo masculino
Que ou quem sente amizade por ou está ligado por uma afeição recíproca a. = COMPANHEIRO ≠ INIMIGO
Que ou quem está em boas relações com outrem. ≠ INIMIGO
Que ou quem se interessa por algo ou é defensor de algosubstantivo masculino
Pessoa que segue um partido ou uma facção.
Forma de tratamento cordial
adjectivo
Que inspira simpatia, amizade ou confiança. = AMIGÁVEL, AMISTOSO, RECONFORTANTE, SIMPÁTICO
Que mantém relações diplomáticas amistosas (ex.: países amigos).
Que ajuda ou favorece. = FAVORÁVEL, PROPÍCIO ≠ CONTRÁRIO
"amigo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/amigo [consultado em 16-02-2014].
_________________

 

 

Amigo não é nada disso


A gente só sabe o que significa amigo quando se abre um buraco dentro do peito porque alguém que conhecemos está mal, entre a vida e a morte.
Aquela sensação de nada, de vácuo que puxa para dentro e dá uma tontura súbita, que deixa a boca seca e sem espaço para palavras ou sons entre a lingua e o palato, como se toda a saliva subisse aos olhos e turvasse a visão.
Amigo é aquela sensação de medo de perder quem ainda tem caminho para fazer connosco.

Como se não se pudesse caminhar sem a certeza daquela presença ainda que distante ou lá longe , não interessa onde, mas presente.

É a sensação de não, não é a hora, ou de - essas coisas são o que têm de ser mas, esta não é a tua hora. A hora de tu ires sem dizer nada e nós ficarmos aqui sem ti. Deixa-te de merdas, que mania de dares nas vistas! Desiste desse sobressalto, não temos mais espaço para encolher o coração a ponto de não sabermos se rezamos, damos as mãos ou passamos umas horas abraçados como se fosse a ti que o fazemos.

Amigo é esta forma cristalina da Cristina , escrever e rever momentos de amigos; aquela palavrão forte e masculino que o Francisco Bruto da Costa soltou quando soube que te deste finalmente ao trabalho de visitar um hospital, assim pela calada e sem avisares; amigo é a mensagem urgente da Elsa , da Júlia , no meu telemóvel e a Irene lá longe a encontrar flores no deserto .
Amigo é a Ni que quer como eu escrever um livro contigo e de cuja edição para castigo hás-de encarrregar-te. Amigo é a Dulce João que pergunta por ti , porque pensa que já podes dizer-nos alguma coisa.

Amigo é isso, ... e eu sei lá que mais... mas principalmente aquele buraco no peito feito de vácuo, lacunas legislativas, sopro e medo.


Despacha-te. Estamos por aqui sem saber se rezamos, escrevemos, falamos uns com os outros ou aguardamos simplesmente que te rias de nós por sermos assim,... sem jeito e saudosos da tua presença amiga.
Amigo é esta falta de tempo para o tratamento por você e passas desde já a ser Tu.
ACCB ( Foi como foi há 3 anos - 16 de Fevereiro de 2014 )

escrito no papiro por ACCB às 15:02
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2017

Filhos.....

 

 

 

 

Filhos.... mas se não tê-los,... como sabê-los?
Senta te aí.
Como dizer te que não tem nada que ver com isso? A gente prolonga se através deles e se partem levam nos tudo,... com eles.
Não te sei dizer... é como quando nascem... não há palavras. É amor à primeira vista, uma paixão de alma de que não há cor para definir ... Não há adjectivo que superlativo ou comparativo defina o sentir.
Se partem...também é assim.
Confusão de sentir ... Um vazio... sem cor ...sem som...definitivo. Mortal.
Mas se não tê-los (sabes?), é como diz o poeta: "como sabê los"?!
Senta te aí é não digas nada. Pensa que o silêncio fala melhor nestas situações.
Pensa assim:
É como quando são adolescentes e barafustamos com regras barulhentas.... Eles não ouvem.
Como quando vão de viagem e te calas ao lado deles à espera do avião. Partias com eles... mas vão felizes sozinhos e esperas que regressem felizes. Essa é a tua felicidade, o reencontro e o brilho nos olhos deles.
Senta te aí....
Não há palavras, nem cor, nem adjectivo superlativo ou comparativo.
Cada partida é diferente. Umas têm regresso outras aguardam te num tempo sem tempo.
Senta te aí.

 

 

 ACCB

escrito no papiro por ACCB às 23:10
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Domingo, 5 de Fevereiro de 2017

Obama

 

 

escrito no papiro por ACCB às 01:31
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017

A propósito de Trump

ba6.png

 

 

 

"Paisagem de muros e de cães a ladrarem pelo céu
- propriedade azul
de todos os desgraçados.
...
Árvores escondidas
que o vento desenha em perfumes
no silêncio do sol.
...
Sebes de silvas e piteiras
ainda com o ódio primitivo
de quando o mundo
era um planeta de florestas e de pássaros,
e o homem um intruso,
um ser ilógico
sem raízes nem asas.
...
Hoje esse homem sou eu,
sem terra para pisar,
sem sombras para dormir,
sem frutos para comer,
sem flores para cheirar,
sem fontes para beber
- perseguido por todos os muros do mundo
numa paisagem de lagartixas.
...
Hoje esse homem sou eu.
...
O céu, ao menos, não tem muros.
E as aves não riscam fronteiras
nem põem vidros partidos nas nuvens."

José Gomes Ferreira

escrito no papiro por ACCB às 12:08
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Domingo, 22 de Janeiro de 2017

Choveu

1ac100.jpg

 

Choveu todo o santo dia. Choveu não copiosamente como quem chora ou como quem esquece o duche quente aberto.
Choveu teimosamente, insistentemente, de forma fina e constante, como uma agulha, sem vento, sempre em linha recta como um poema enorme e de leitura incansável.
Ainda chove, as luzinhas dos faróis salpicadas de gotas parecem pedrinhas preciosas, sonhos de Natal.
Mas é Janeiro e está frio. Não esteve muito frio durante o dia.... mas a noite promete arrefecer.
Reparei que já não há chapéus de chuva coloridos e daqueles que duram muito, que se levam ao Sr José da loja pequenina ao pé da Igreja ou se entregam num repente ao "amolador" que anuncia na rua que arranja tudo, chapes de chuva e respectivas varetas.
Isto de andar à chuva e sentir os pés quentes dentro das botas,as pernas quentes dentro das calças, as costas quentes dentro do impermeável, é uma aventura.... como quando se é criança e há lagos de água para saltar para dentro.
Choveu todo o dia. Devia haver uma forma de ver chover toda a noite.

 

 21.1.2016


____________José Luís Outono


Ainda no outro dia, vi um amolador...e o som típico do instrumento publicitário, que os anunciava.
São estes momentos, que nos fazem recuar e indagar, como vivemos com tão pouco e sorrimos tanto no viver. Questiono amiúde se a tecnologia ou a energia da pressa para ontem, são motivos de desenvolvimento?
Hoje, vi chover, e os pingos contavam histórias tão alegres, apesar do incómodo da chuva. Quantas vezes, não brincávamos entre o mar invernoso e a calma outonal, com os pingos de um chafariz, para simular uma frescura caminhante de sonhos.
Lembro-me da primeira chamada de um telemóvel...e perguntei, como é que isto leva e traz a voz. E a resposta estava tão perto, na rotação da terra, no anoitecer e no amanhecer e no viver calmo...e tudo acontecia. Hoje, ainda não percebi bem, como vivemos amanhã, com o prognóstico de ontem, e dizemos está tudo no computador. Por este andar, um dia vou receber uma SMS, quem sabe via chip cutâneo como cartão de cidadão, a recomendar - acaba o livro hoje, porque amanhã está tudo encerrado para balanço. Sorrio, olho para o pavimento molhado, o reflexo faz-me uma fotografia, e o pensamento codifica-a, no envio cibernético para uma enciclopédia de barras codificadoras do planeta ao lado.
NOTA: Hoje apeteceu-me recuar aos tempos desafiadores da palavra.

__________________Jorge Casaca

Mas cai. De noite a chuva cai. É mais difícil de a ver pontilhada pelos candeeiros da avenida. Mas sabe bem vê-la refletir nos charcos os faróis dos carros parados nos semáforos. Ouve-se. Aquela voz fininha da chuva ouve-se de noite, o algeroz avariado do terceiro andar, o andar molhado dos gatos.

_________________
Adelina Barradas de Oliveira

O Algeroz avariado do terceiro andar, o andar molhado dos gatos, os sapatos de salto alto tardios pela calçada, frios de uma noite solitária e fina como a chuva.
E ficam as janelas salpicadas como sons de cristal.... Se o vento não sopra é tão bom dormir escutando os cabelos da chuva.
Ouve-se tudo,... até a rua que escorre até à ribeira que já foi rio mas está sempre seco de Verão.

____________Jorge Casaca

É como aquele pingar de frio nos óculos a estrelar as luzes. O peso da água nos ombros que se vão molhando. Aquele cheiro da terra levantada gota a gota. De fora as pessoas passam escondidas em capas de cogumelos, sombrias como se fugissem.

________________Adelina  Barradas de Oliveira

Hoje não chove e o frio parece pingentes de cristal a cortar os dedos das mãos
Não vou à rua ou vou?
O relógio da torre da igreja continua a dar horas, são 9... Não vou ou vou? Está sol, vai derreter o frio.

__________Jorge Casaca

O sol aquece os vendedores da feira junto à Ria. Foi anteontem, foi anteontem mas podia ter sido no século passado, que os écrans dos televisores embranqueciam com a neve. Aquela que já não caía desde há tanto tempo que as pessoas pensavam que nunca acontecera. Foi ainda ontem que as pessoas se cumprimentavam com um «está tanto frio».
__________________

Adelina Barradas de Oliveira

Subiu a temperatura, poucos graus é verdade,  os dedos doem ainda como se fossem gelo. Às vezes parece que os deito no Martini e os provo. Congela-se a palavra.
Fica lá fora aquela luz cristal de sol de Inverno e uma vontade enorme de correr para o Mar.
Não há na que se interponha a não ser o chamamento do trabalho ao fim de semana.
 Não é justo. Com este frio até os papéis deviam congelar.

_______________
José Luís Outono
Ontem às 11:24 ·
HÁ "BOCAS" INFERNAIS.
Fui à farmácia comprar um medicamento (normal). A farmacêutica, muito gentil disse-me - Anote por favor como vai medicar-se. Deu-me um papel, emprestou-me a esferográfica e ditou...
Uma jovem "cinquentona", sem mais demoras exclama - Vê-se mesmo que é um velho. Não tem um telemóvel? Clique, ou dite para ele...já viu...está a empatar toda a gente, com a demora da escrita.
Olhei para ela, e disse-lhe em diálogo de olhar azedo, TUDO ... enquanto a farmacêutica lhe recomendava calma.
No regresso a casa, fui "buscar o filme", como realizava emissões de rádio, com discos de vinil e gravadores/reprodutores de fitas magnéticas, e até era permitido fumar nos estúdios (que horror).
De repente, um comentário ( a cabeça ainda funciona) que fiz a um excelente texto de Adelina Lininhacbo Barradas de Oliveira, neste dia 21 de Janeiro, mas do ano passado, assaltou-me a cabeça .
"Ainda no outro dia, vi um amolador...e ouvi o som típico do instrumento publicitário, que os anunciava.
São estes momentos, que nos fazem recuar e indagar, como vivemos com tão pouco e sorrimos tanto no viver. Questiono amiúde se a tecnologia ou a energia da pressa para ontem, são motivos de desenvolvimento?
Hoje, vi chover, e os pingos contavam histórias tão alegres, apesar do incómodo da chuva. Quantas vezes, não brincávamos entre o mar invernoso e a calma outonal, com os pingos de um chafariz, para simular uma frescura caminhante de sonhos.
Lembro-me da primeira chamada de um telemóvel...e perguntei, como é que isto leva e traz a voz. E a resposta estava tão perto, na rotação da terra, no anoitecer e no amanhecer e no viver calmo...e tudo acontecia. Hoje, ainda não percebi bem, como vivemos amanhã, com o prognóstico de ontem, e dizemos está tudo no computador. Por este andar, um dia vou receber uma SMS, quem sabe via chip cutâneo como cartão de cidadão, a recomendar - acaba o livro hoje, porque amanhã está tudo encerrado para balanço. Sorrio, e olho para o pavimento molhado. O reflexo faz-me uma fotografia, e o pensamento codifica-a, no envio cibernético para uma enciclopédia de barras codificadoras do planeta ao lado."
NOTA: Hoje apeteceu-me recuar aos tempos desafiadores da palavra.
JLO

escrito no papiro por ACCB às 14:35
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas (1)
Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Desiderata

poema2-696x392.jpg

 

Vai serenamente por entre a agitação e a pressa e lembra-te da paz que pode haver no silêncio.
Sem seres subserviente, mantém-te tanto quanto possível, em boas relações com todos.


Diz a tua verdade calma e claramente e escuta com atenção os outros mesmo que menos dotados e ignorantes; também eles têm a sua história.


Evita as pessoas barulhentas e agressivas; são mortificações para o espírito.


Se te comparas com os outros podes tornar-te presunçoso ou melancólico porque haverá sempre pessoas superiores e inferiores a ti.


Apraz-te com as tuas realizações tanto como com os teus planos.


Põe todo o interesse na tua carreira ainda que ela seja humilde; é um bem real nos destinos mutáveis do tempo.


Usa de prudência nos teus negócios porque o mundo está cheio de astúcia; mas que isto não te cegue a ponto de não veres virtude onde ela existe; muitas pessoas lutam por altos ideais e em todo o lado a vida está cheia de heroísmo.


Sê fiel a ti mesmo. Sobretudo não simules afeição nem sejas cínico em relação ao amor porque, em face da aridez e do desencanto, ele é perene como a relva.


Toma amavelmente o conselho dos mais idosos, renunciando com graciosidade às ideias da juventude.
Educa a fortaleza de espírito para que te salvaguarde numa inesperada desdita.


Mas não te atormentes com fantasias. Muitos receios surgem da fadiga e da solidão.


Para além de uma disciplina salutar, sê gentil contigo mesmo.


Tu és filho do universo e, tal como as árvores e as estrelas, tens direito de o habitar. E quer isto seja ou não claro para ti, sem dúvida que o universo é – te disto revelador.


Portanto vive em paz com Deus seja qual for a ideia que d´Ele tiveres. E quaisquer que sejam as tuas lutas e aspirações, na ruidosa confusão da vida, conserva-te em paz com a tua alma.


Com toda a sua falsidade, escravidão e sonhos desfeitos o mundo é ainda maravilhoso.


Sê cauteloso. Luta para seres feliz.

Max Ehrmann,

escrito no papiro por ACCB às 00:18
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

8 de janeiro de 2014

 

belem.jpg

 

 

8 de janeiro de 2014 


Deixa-me que te escreva sem ser a sério... Quem sabe alguma coisa de jeito se há-de ler.
Eu sei que é apenas tentação de me perder entre palavras e portas entreabertas de pensamentos inacabados. Não há que resistir e, no entanto, tenho resistido tanto a este cair em frases e pensamentos, letras e aconchegos de ideias que ainda não existem, já existem,... mas não conheço...
Não que não tenha muito para escrever, tanto para questionar,... mas não é nada disso, nem daquilo que costumo escrever.
É um desvario de me perder no que nem sei onde pára,...onde começa ou onde existe.
Ideias loucas,...inquietação,... palavras soltas,... todas juntas num ficar-se longe para ficar tão perto.
Escrever por escrever...pode ser que se leia alguma coisa de jeito.
Inquietação,.. inquietação...
Ainda hoje,... ao lado do cinza bege do rio que corria pela margem logo ao virar do olhar, pensei quantas imagens trazia ele,...o rio...
Quantas histórias tinha para contar de tão veloz...para onde ía?...Como se a escrita fosse assim como uma maré...que não sabe onde é a foz mas vai... desvairada e tudo faz sentido ou não...Ou apenas começa a fazer sentido quando o caudal se olha ao longe e é só um... muitas margens e só um leito de água...
Não tinha barcos,... nem pontes o rio. O nevoeiro roubara a ponte como quem apaga o que acabámos de escrever...desassossego...
E o céu era da cor do caudal que abria o rumo de uma não sei que imaginada foz que nunca existiria... Inquietação...inquietação...

Não fora o nevoeiro roubar a ponte e eu sabia agora o que escrever.
Vou aquietar-me.

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 00:58
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

Um texto que dá que pensar hoje.........

 

 

amanhã...quando quiserem. Bonito

 

406515_188880494544870_761079603_n.jpg

 


O Amor é um Acidente, uma Renúncia, um Hábito, uma Maldição

O amor é um acidente.

Eu estava sentada no regaço de uma mulher de cobre, uma escultura de Henry Moore, e Bill debruçou-se sobre mim e beijou-me nos lábios. E de repente eu amava-o. Amava-o e só isso importava.

Reparei nas mãos dele, mãos de pianista. Mãos preparadas para o amor. Ainda hoje gosto de lhe ver as mãos enquanto folheia um livro, enquanto lê um jornal.

As mãos dele envelheceram, envelheceram a apertar outras mãos, milhares de outras mãos, a jogar golfe, a assinar autógrafos e documentos importantes.

Envelheceram, sim, mas continuam belas. Continuam a excitar-me.O amor é uma renúncia. Amar alguém é desistir de amar outros, é desistir por esse amor do amor de outros.

Eu desisti de tudo. A partir desse dia dei-lhe todos os meus dias. Entreguei-lhe os meus sonhos, os meus segredos, as minhas convicções mais profundas. Não me queixo!Não sou ingénua nem estúpida.

 

Quando digo que o amor é uma renúncia, quero dizer que foi assim para mim. Para Bill foi sempre uma outra coisa. Eu sabia que ele reparava noutras mulheres, e que outras mulheres reparavam nele.

Um homem feio, com poder, é quase bonito. Um homem bonito, com poder, é quase um Deus.

Apesar da minha educação cristã, ou por causa dela, sempre me recusei a viver sujeita à ameaça do pecado. As grandes indústrias vêm tentando convencer-nos de que é possível tirar o veneno ao prazer e ficar apenas com o prazer: café sem cafeína, cerveja sem álcool, cigarro sem nicotina - amor platónico.

Quanta estupidez.

Quem bebe café procura a exaltação da cafeína.

Quem pede uma cerveja numa tarde de sol quer refrescar o corpo, sim, mas também quer soltar o espírito.

Se é para pecar quero o pecado inteiro.

Bill teve o seu castigo. Tivemos os dois.

Foram dias difíceis, foram noites ainda mais difíceis, mas passaram. Uma manhã acordei e já não tinha lágrimas. Noutra manhã acordei e já não o odiava.

Finalmente acordei e estava de novo abraçada a ele.

O amor é um hábito. Como acham que cheguei até este dia?

Foi o amor que me trouxe. Maldito seja.

 

José Eduardo Agualusa, in 'A Educação Sentimental dos Pássaros '

escrito no papiro por ACCB às 20:18
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas

Para Fazer o Retrato de um Pássaro

 

553326_215351371897782_1187484428_n.jpg

 

 

 

(JACQUES PRÉVERT*, trad. Eugénio de Andrade)

Pinta primeiro uma gaiola

com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres...
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.

 

Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas

Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
a poeira do sole o ruído dos bichos entre as ervas no calor do verão
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar

então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

* Jacques Prévert (França, 1900-1977)

escrito no papiro por ACCB às 20:13
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas

Poema pouco original do medo

loucura.jpg

 


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
-
Alexandre O'neill
-

escrito no papiro por ACCB às 19:39
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas

Poema de Jenny Londoño

156212_220850414681211_1117400099_n.jpg

 



Vengo desde el ayer, desde el pasado oscuro y olvidado con las manos atadas por el tiempo, con la boca sellada desde épocas remotas.

Vengo cargada de dolores antiguos, recogidos por siglos, arrastrando cadenas largas e indestructibles.

Vengo desde la oscuridad del pozo del olvido, con el silencio a cuestas, con el miedo ancestral que ha corroído mi alma desde el principio de los tiempos.

Vengo de ser esclava por milenios, esclava de maneras diferentes, sometida al deseo de mi raptor en Persia, esclavizada en Grecia, bajo el poder romano.

Convertida en vestal, en las tierras de
Egipto, ofrecida a los dioses de ritos milenarios, vendida en el desierto o canjeada como una mercancía.

Vengo de ser apedreada por adúltera en las calles de Jerusalén, por una turba de hipócritas, pecadores de todas las especies, que clamaban al cielo mi castigo.

He sido mutilada en muchos pueblos para privar mi cuerpo de placeres y convertida en animal de carga, trabajadora y paridora de la especie.

Me han violado sin límite, en todos los rincones del planeta, sin que cuente mi edad madura o tierna o importe mi color o mi estatura.

Debí servir ayer a los señores, prestarme a sus deseos, entregarme, donarme, destruirme, olvidarme de ser una entre miles.
He sido barragana de un señor de Castilla, esposa de un Marqués y concubina de un comerciante griego, prostituta en Bombay y filipinas y siempre ha sido igual mi tratamiento.

De unos y de otros siempre esclava, de unos y de otros dependiente, menor de edad en todos los asuntos, invisible en la historia mas lejana, olvidada en la historia más reciente.

Yo no tuve la luz del alfabeto durante largos siglos. Aboné con mis lágrimas la tierra que debí cultivar desde mi infancia.

He recorrido el mundo en millares de vidas que me han sido entregadas una a una.

Y he conocido a todos los hombres del planeta: los grandes y pequeños, los bravos y cobardes, los viles, los honestos, los buenos, los terribles.

Mas casi todos llevan la marca de los tiempos.
Unos manejan vidas como amos y señores, asfixian, aprisionan, succionan y aniquilan.

Otros manejan almas: comercian con ideas, asustan o seducen, manipulan y oprimen.

Unos cuentan las horas con el filo del hambre, atravesado en medio de la angustia.

Otros viajan desnudos por su propio desierto y duermen con la muerte en la mitad del día.

Yo los conozco a todos.
Estuve cerca de unos y de otros, sirviendo cada día, recogiendo las migajas, bajando la cerviz a cada paso,
cumpliendo con mi karma.

He recorrido todos los caminos.
He arañado paredes y ensayado cilicios, tratando de cumplir con el mandato de ser como ellos quieren, mas no lo he conseguido.
Jamás se permitió que yo escogiera el rumbo de mi vida.

He caminado siempre en una disyuntiva, ser santa o prostituta.
He conocido el odio de los inquisidores que a nombre de "la santa madre iglesia" , condenaron mi cuerpo a su sevicia o a las infames llamas de la hoguera.

Me han llamado de múltiples maneras : bruja, loca, adivina, pervertida, aliada de Satán, esclava de la carne, seductora, ninfómana, culpable de los males de la tierra.

Pero seguí viviendo, arando, cosechando, cosiendo, construyendo, cocinando, tejiendo, curando, protegiendo, pariendo, criando, amamantando, cuidando,
y sobre todo amando.

He poblado la tierra de amos y de esclavos, de ricos y mendigos, de genios y de idiotas, pero todos tuvieron el calor de mi vientre, mi sangre y mi aliento, y se llevaron un poco de mi vida.

Logré sobrevivir a la conquista brutal y despiadada de Castilla en las tierras de América, pero perdí mis dioses y mi tierra y mi vientre parió a gente mestiza, después de que el castellano me
tomara por la fuerza.

Y en este continente mancillado proseguí mi existencia, cargada de dolores cotidianos.

Negra y esclava en medio de la hacienda, me vi obligada a recibir al amo cuantas veces quisiera, sin poder
expresar ninguna queja.

Después fui costurera, campesina, sirvienta, labradora, madre de muchos hijos miserables, vendedora ambulante, curandera, cuidadora de niños y de ancianos, artesana de manos prodigiosas, tejedora, bordadora, obrera, maestra,
secretaria o enfermera.
Siempre sirviendo a todos, convertida en abeja o sementera, cumpliendo las tareas más ingratas, moldeada como cántaro por las manos ajenas.

Y un día me dolí de mis angustias.
Un día me cansé de mis trajines, abandoné el desierto y el océano, bajé de la montaña, atravesé las selvas y confines y convertí mi voz dulce y tranquila
enbocina del viento, en grito universal y enloquecido.

Y convoqué a la viuda, a la casada, a la mujer del pueblo, a la soltera, a la madre angustiada, a la fea, a la recién parida, a la violada, a la triste, a la callada, a la hermosa, a la pobre, a la
afligida, a la ignorante, a la fiel, a la engañada, a la prostituta.
Vinieron miles de mujeres, juntas, a escuchar mis arengas.

Se habló de los dolores milenarios, de las largas cadenas que los siglos nos cargaron a cuestas.

Y formamos con todas nuestras quejas un caudaloso río que empezó a recorrer el universo, ahogando la injusticia y el olvido.

El mundo se quedó paralizado. ¡los hombres sin mujeres no caminan!

Se pararon las máquinas, los tornos, los grandes edificios y las fábricas, ministerios y hoteles, talleres y oficinas, hospitales y tiendas, hogares y cocinas.

Las mujeres, por fin, lo descubrimos. ¡somos tan poderosas como ellos y somos muchas más sobre la tierra ! ¡ más que el silencio y más que el sufrimiento ! ¡ más que la infamia y más que la
miseria !

Que este canto resuene en las lejanas tierras de indochina, en las arenas cálidas del África, en Alaska o en America latina, llamando a la igualdad entre los géneros, a construir un mundo solidário -- distinto, horizontal, sin poderíos -- a conjugar ternura, paz y vida, a beber de la ciencia sin distingos.
A derrotar el odio y los prejuicios, el poder de unos pocos, las mezquinas fronteras.
A amasar con las manos de ambos sexos el pan de la existencia.

escrito no papiro por ACCB às 19:36
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016

Tons de escrita

1601449_556190597813856_130846289242326924_n.jpg

 

 

 

Tens de ver se os teus olhos têm reflexos verdes ou se por acaso será desse teu brilho na voz . Será que é porque parece que quando chove à tua volta, o chão fica daquele verde dourado que cobre os mantos das damas, de noite, pelos castelos? Ou saíste de um livro em que os contos de fadas têm personagens reais?
Olha deixa lá, não penses mais nisso, parece-me mesmo que é do reflexo verde do brilho do teu olhar.
Também podia ser dessa tonalidade azul que dás à voz ou do vermelho dos gestos que te caracteriza,.... Sinceramente não sei. Não sei, assim como não sei porque ponho reticências a seguir às virgulas quando penso o que escrever a seguir... porque, isto de escrever é só quando não se pensa, sai assim, de repente, como uma ideia que não se deve conter, como quando de noite temos ideias brilhantes e a seguir adormecemos. Não voltam,.... perderam-se nos sonhos.
Tudo tem uma razão, uma causa, uma sequência e a tua é a do reflexo. Às vezes apetece-me espreitar do outro lado, mas encontro sempre o mesmo verde, o mesmo azul e o mesmo vermelho, como uma bandeira que acenas e com a qual dizes que te recusas a seguir o mesmo trilho já trilhado...
Tens de ver se os teus olhos têm reflexos verdes....

 

21.11.2014

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 16:11
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016

Super Lua




 

Olha, está na hora de dormir dizem as regras... E eu que sempre tentei quebrá-las agora zelo pelo seu cumprimento. Dormir... que perda de tempo.
Até que tenho sono mas tenho mais vontade. Vontade de ficar à espera da trovoada de ontem que não passa mais hoje e que se passar já será outra. Vontade de escrever e atirar as palavras ao papel, à folha, ao teclado ao que quer que seja mas que me deixem quebrar as regras.
Passo a vida a zelar pelas regras e pelo seu cumprimento e pelo respeito que lhes é devido ... e entre este zelar estonteado e teimoso perco-me pelas palavras e encontro-me em rostos que não conheço...
Olha, sabes? dizem que está na hora de dormir...mas eu não quero. A noite é boa companheira. De noite notam-se os contornos das sombras que de dia se esbatem à luz do sol ou nas cortinas de chuva.
Na hora de dormir desperto ...é como se o apelo da escrita me libertasse e amanhã é segunda feira. Nunca gostei da segunda feira, ou gostei? Já não me lembro. Não gostar da segunda feira é uma regra e eu vivo rodeada de regras.
Está na hora de dormir dizem as regras....e o espírito das regras o que diz???

14.11.2015

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 01:30
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Sexta-feira, 11 de Novembro de 2016

No dia 11.11.2016

a7029d1fd6cf6a932e8ba7b6be21543d.jpg

 

"Que a boa sorte te persiga e que teu coração se preencha com tudo o que desejares.

Que vejas os filhos dos filhos dos filhos dos teus filhos.

Que não conheças nada além da felicidade, deste dia em diante."

– (Essa é uma Bênção Celta).

escrito no papiro por ACCB às 16:45
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016

10.11.2016

 

escrito no papiro por ACCB às 15:54
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Sexta-feira, 21 de Outubro de 2016

"May be ...... the price I have to pay."

Acabaste o dia
Escolhes o caminho mais fácil, o do mar.
Devagar que a velocidade tem limite e no teu caso o limite há-de ser perto dos 40.
O radio acompanha a velocidade e o estado de alma.
Olhas o mar, é sempre bem vindo e ali há sempre um infinito de sorrisos na maré.
Está cheia, tão cheia que não se move.
O som fica mais alto, tem lembranças envolvidas e sorris.
Cada pedaço é uma aguarela e aproveitas para guardar os flashes que se oferecem (também eles sorridentes), à passagem.
Logo ali, depois da baía onde a faina descansa no colorido dos barcos que se fazem ao mar, tens uma curva que se dilui como se Lisboa entrasse pelo rio e o nevoeiro se enovelasse nas copas das árvores.
O farol observa os farrapos brancos e líquidos a subirem a encosta , vindos do rio a pulso, ....espalham-se como cabelos longos ao vento.
O radio do carro repete uma canção antiga como se falasse de um castigo de alguém enquanto a voz vai dizendo..."May be ...... the price I have to pay."
Sorris. Há sempre um preço a pagar.
Há que desfazer a curva, olhas e repares que de repente tudo ficou com ar de Natal, mais uma vez tudo irá ficar com aquele ar de dia chuvoso e frio mas com luzes.
O radio continua em extase com a canção antiga e o nevoeiro solto pela Marginal.... May come to me from shadows of the past.....
Mas logo em frente há sol de novo e o fim da tarde ganha de repente um rosto normal.
É Outono, nada de novo... apenas um passeio pela tarde na Marginal.

 

escrito no papiro por ACCB às 01:39
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Segunda-feira, 17 de Outubro de 2016

Não peças a quem pediu

cesare-zocchi_superbi_monumento_a_dante_trento.jpg

(Cesare Zocchi, O Soberbo, detalhe do monumento a Dante em Trento)

 

 

 

Não peças a quem pediu nem
sirvas a quem serviu
Um aviso a fazer e um cuidado a ter a todos os níveis
Cada vez me convenço mais de que é verdade
O tirano é um indivíduo que não foi livre
O tirano é um indivíduo frustrado
A sua tarefa o seu maior objectivo é dominar para não ser dominado
Retirar ao outro o seu espaço de liberdade para que não controle o seu espaço de tirania
Por quantos tiranos vamos ser orientados no Futuro?
Uns dão te ordens absolutamente contrárias às leis existentes
Outros vestem a pele do intelectual justo e líder quando o desejo é ser realmente o líder que não são
Encabeçam movimentações contra alguém que esteja a ser alvo de crítica ( é um exemplo), para serem populares e serem seguidos
O tirano é um ser que se diz recto para poder ser admirado, seguido, obedecido ...
E depois tudo se torna uma luta sem quartel porque o tirano
está atento, não descura a oportunidade de subir e alargar a sua fé, a sua teoria, o seu poder que só lhe vem dos outros enganados pelo voluntarismo que se firma no colectivo dos que tem fome e sede de sangue e a quem ele promete que serão saciados ....
E, porque não têm a calma observadora do tirano, e porque ir à frente é trabalhoso, tomam- no em ombros e nem reparam que o tirano não vai à frente, vai carregado por eles a quem há-de subjugar. Escudado nos ímpetos alheios entra em ombros e faz se não eleger mas obedecer.

Há que não servir a quem serviu
E não pedir a quem pediu

O homem justo é livre até de si mesmo

 

escrito no papiro por ACCB às 01:27
link do post | Escreva no Papiro | ver papiros (1) | juntar aos escribas
Segunda-feira, 10 de Outubro de 2016

Noite....

beatriz-martin-vidal-camilla.jpg

 



Não pareça a casa vazia,
caso não amanheça amanhã;
que tudo continue à beira
de acontecer, deixa os copos cheios,
não esqueças, como se o vinho fora
a última forma da esperança.
E deixa também o pão, partido,
na toalha,
para haver um cheiro de espigas altas
ou parecer ao menos que há coisas
que ainda se podem partilhar.
Deixa um livro aberto em qualquer sítio
como se fosses voltar muito em breve;
e que tudo pareça que ficou à tua espera.
Não note a morte ao chegar
que já não vive ninguém na casa.
Deixa aberta a janela para poder entrar
todo esse barulho estranho
e alheio da rua.
Não haja na tua morte
essa mesma intempérie
que sempre houve na tua vida.
Guarda num espelho
o teu olhar e um pouco dessa luz
que em teus olhos já não haverá
amanhã; e põe dentro dum caderno
a brasa viva do teu tacto. Deixa acesa
uma lâmpada, não vá a noite
durar demasiado.
Deixa tudo como se esta noite
não estivesse para ser a última.
Não te esqueças de deixar um livro
aberto em qualquer página.
E deixa bem aberta a janela
para a luz te conhecer amanhã,
mesmo que sejas apenas
um corpo partido, com frio e sem memória;
para que assim amanhã (caso amanheça)
entre de novo por ela – mesmo que tu não ouças –
todo esse barulho estranho
e alheio da vida.
(Trad. A.M.)
.Pedro A. González Moreno

escrito no papiro por ACCB às 11:07
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Quinta-feira, 6 de Outubro de 2016

....contemplação....

 





"Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas."


Tomas Tranströmer

escrito no papiro por ACCB às 13:22
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas

Como é um alentejano?

 



Como é um alentejano?
É, assim, a modos que atravessado.
Nem é bem branco, nem preto, nem castanho, nem amarelo, nem vermelho...
E também não é bem judeu, nem bem cigano.
Como é que hei-de explicar?
É uma mistura disto tudo com uma pinga de azeite e uma côdea de pão:
-Dos amarelos, herdámos a filosofia oriental, a paciência de chinês e aquela paz interior do tipo "não há nada que me chateie";
-dos pretos, o gosto pela savana, por não fazer nada e pelos prazeres da vida;
-dos judeus, o humor cáustico e refinado e as anedotas curtas e autobiográficas;
-dos árabes, a pele curtida pelo sol do deserto e esse jeito especial de nos escarrancharmos nos camelos;
-dos ciganos, a esperteza de enganar os outros, convencendo-os de que são eles que nos estão a enganar a nós;
-dos brancos, o olhar intelectual de carneiro mal morto;
-dos vermelhos, essa grande maluqueira de sermos todos iguais.
O alentejano, como se vê, mais do que uma raça pura, é uma raça apurada.
Ou melhor, uma caldeirada feita com os melhores ingredientes de cada uma das raças.
Não é fácil fazer um alentejano.
Por isso, há tão poucos.
É certo que os judeus são o povo eleito de Deus.
Mas os alentejanos têm uma enorme vantagem sobre os judeus: nunca foram eleitos por ninguém, o que é o melhor certificado da sua qualidade.
Conhecem, por acaso, alguém que preste que já tenha sido eleito para alguma coisa?
E já imaginaram o que seria o mundo governado por um alentejano?
Era um descanso!

Santana-Maia Leonardo

escrito no papiro por ACCB às 13:17
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas

Que se dane a regra e o preconceito

9405381_n.jpg

 

 

 

Se quiser viver muito, viva.
Se quiser sorrir muito e muito alto, faça-o.
Se quiser cantar alto cante ainda que desafinado ou desafinada, "pois os desafinados também têm coração."

Se lhe apetecer abraçar abrace .......e andar descalça ande...
E apetece-lhe vinho do Porto em Lisboa, beba,... embriague-se de vontade de ser livre e feliz...
Que se dane a regra, a norma, o preconceito..
Tem vontade de gritar lá do fundo da alma alto e bom som mas é de noite e todos dormem?... Apague a luz, abra a janela e grite! Pode ser que o Sol se acenda.

E se lhe apetecer não dormir não durma...
E se morrer de sono morra o tempo necessário para acordar bem disposta ou bem disposto e querer viver muito.

Aí Viva!

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 13:08
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Segunda-feira, 3 de Outubro de 2016

Sílaba súbita

1385285_406113239488260_488755200_n.jpg

 


Sílaba súbita?
Sim é súbita a sílaba, o gesto, o pedacinho da imagem que salta à vista e marca.
Ando com as sílabas todas desarrumadas e tenho de escrever para perceber o sitio delas.
Assim, de súbito, como se acabassem todas amanhã.

escrito no papiro por ACCB às 23:29
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas

É nos olhos....

 

 

É nos olhos, acho que é nos olhos ou no sorriso dos olhos. É aí que se mantém o tempo da infância e da juventude.
Tudo o mais é passagem.
Encontramos os amigos e eles estão dentro dos olhos deles connosco e com as recordações, as marcas da vida que deixámos por lá e as saudades que ficam de tudo o que vivemos juntos.
Os amigos não "envelhecem" eles vivem connosco dentro do sorriso dos olhos.

escrito no papiro por ACCB às 18:04
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas

Papéis velhos...

1377599_406010966165154_1709818821_n.jpg

 

 

 

Olha, estou assim, numa pasmaceira com o cotovelo fincado na secretária.
Tanto papel. Tenho uns muito velhos para ler.
Lembrei-me de que gosto de fotografias velhas, não é antigas, é mesmo velhas. Têm um aroma característico. Já reparaste? Não não é tom é mesmo aroma. Algumas cheiram aqueles bombons com recheio embrulhados em pratinha fina,... lembras-te? Deve ser da caixa.
E os álbuns de fotografias com a folhinha de papel vegetal a separar e os cantos transparentes que as seguram nas páginas?
Lembras-te?!
Estou assim, pasmada em cima da secretária, sentada nos pensamentos e com os olhos ao fundo, em fotografias com margens picotadinhas de branco.
E tenho ali uns papéis muito velhos para ler....

 

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 09:57
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas

Papel em branco.....

1384110_405867866179464_877506314_n.jpg

 

 

Papel em branco...
Até parece o Jorge Palma a gastar cigarros e whisky velho. Deve ser do velho...para ter sempre inspiração...
Papel em Branco e Relógio implacável às voltas. Ainda me hão-de explicar como é que ele, o relógio, consegue puxar o Sol para baixo , como se fosse uma cortina chinesa só para deixar a Lua à vista.
O papel continua em branco.... agora até ía um cigarro nem que fosse só para lhe observar as espirais de fumo,...podia ser que a imaginação se enovelasse nelas...
Whisky não que não bebo.
Esferográfica?... Não... demasiado prática e plástica. Caneta, tem de ser a caneta ... com aparo elegante... comprido, nem muito grosso nem muito fino... daqueles macios que deixam a letra com ar de antiga e bonita,... que isto de escrever no teclado estraga a caligrafia.

Hum... queixo na mão, papel em branco... cortina corrida, chuva lá fora... Ainda se ao menos caísse uma trovoada.Papel em branco.....

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 09:52
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Quinta-feira, 29 de Setembro de 2016

. A escrever qualquer coisa .

 

Olha que me sentava aqui agora e escrevia-te qualquer coisa. É a chuva lá fora que me deixa assim nostálgica.

Depois de cumprir deveres cívicos de que não abdico, cai a noite e o rodado dos carros salpica a estrada que me faz lembrar que hoje ainda é domingo e as pausas são curtas.
São tão curtas as pausas... como são longas as reticências.
Já reparaste que as reticências são cheias de imaginação e silêncios? Como podem ambos ( imaginação e silêncio), conjugar-se em três pontinhos de nada?
Tenho coisas para reler... ...
Não me apetece nada... ...
Olha que me sentava aqui agora e escrevia-te qualquer coisa, só para arrumar os pensamentos e soltar as ideias,... sem as arrumar, sem as ordenar... Precisam de espaço as ideias.
É a chuva que me deixa assim nostálgica e nem é que eu saiba o que iria escrever...
Às vezes tenho a sensação de que vou pensando conforme escrevo e as ideias surgem conforme surgem as letras. Não há nada construído, tudo vai ganhando forma conforme as palavras se vão ordenando e colocando no texto... não havia nada antes...umas provocam as outras e as sensações...ou estas as palavras...
Olha que me sentava aqui agora ...e escrevia-te qualquer coisa... .



 Mas hoje não chove.............

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 16:51
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2016

Linhas...

 

 

 

 

 

Hipocrisia2.jpg

 


Dar um passo estar ali, ali onde a terra se une ao mar e mistura com o céu
Usufruir do cheiro de ser livre e não ter um único minuto contado nem horas marcadas a não ser que eu as marque
Perceber os sorrisos que dizem coisas como que a brincar mas são apenas ironias de verdades recalcadas
Ficar com os homens e as mulheres que mastigam a Vida até ao fim
Ter o prazer de me fechar num livro e correr pela escrita, quem sabe escrever.
Empreender o que tem de ser feito, sem grandes vôos , pode ser logo ali e pronto....aquele fio de maré ou contraste de cor...
Libertar-me das grilhetas dos outros que não fiz nem quero fazer
Afinal cuidar pode ser doloroso....Cada um que lamba as suas feridas .... dizem...
O mandamento universal "ama o outro como a ti mesmo" foi substituído pela lógica do ama-te mesmo, e a ti que te ame o outro se isso não te for um estorvo.

 

 ACCB

escrito no papiro por ACCB às 10:32
link do post | Escreva no Papiro | ver papiros (1) | juntar aos escribas
Terça-feira, 20 de Setembro de 2016

Chuva de lua cheia

At_the_seashore_Wallpaper_3690.jpg

 

 

 

Ainda há dias derramaram topázios no céu....Lembram-se? Até a lua ficou espantada de luz e a noite iluminou-se por dentro.
Ainda há dias era Verão e só o mar importava.
De repente voltou tudo ao sítio habitual e as horas voltaram a correr contra o tempo e a serem derrotadas por ele.
Dêem-me um relógio com mais meia noite.

 

 ACCB

escrito no papiro por ACCB às 12:29
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Sexta-feira, 22 de Julho de 2016

Inércia

scaleneep2016.jpg

 

 

 

 

21 de Julho de 2013 ·
Inércia não é a propriedade que têm os corpos de persistir no estado de repouso (ou de movimento) enquanto não intervém uma força que altere esse estado.
Inércia é uma sensação estranha de ver o relógio contar as horas e não haver nada que se produza e cause alterações.
É este diz que se fará e não fazer, um contar que se faça e ficar tudo para uma data que não existe.
É o palavrar empertigado de gravata ao pescoço que se empoleira nas ideias mas nem as olha nos olhos...
Inércia é a feira de vaidades que sai no jornal das oito...
Esta forma de estar passiva de quem perdeu a bússola e nunca estudou astronomia nem leu nada de astrofísica.
Inércia é um estado de letargia egoísta à deriva dos acontecimentos e do Futuro...
O que é que altera este estado?!

 

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 01:46
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Quarta-feira, 13 de Julho de 2016

Adeus Meu Amigo

13680640_796112570488323_5798354486827973318_n.jpg

 

Respeitemos o Ciclo da Vida........................................... 

escrito no papiro por ACCB às 00:50
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Segunda-feira, 11 de Julho de 2016

Esta força que ninguém pode parar

Não me perguntem porquê.....
Não vos sei explicar mas sente-se a alma Lusitana e, em 3 tempos acabávamos com a crise, com a Guerra e com a fome, apagávamos todo mal do Mundo num passe de mágica e éramos .....os melhores.
Lembram-se do filme Invictus? Perceberam o que o futebol pode fazer por uma País, por uma política, pela união dos povos?
Não importa se não acenderam as nossas cores em Paris, porque nós acendemos as nossas cores em Paris e no resto do Mundo.
Não importa que tenham neutralizado o melhor Jogador do mundo porque, mesmo neutralizado tivemos o melhor guarda redes, a melhor equipa ainda que desnorteada pela alteração forçada de estratégia... e ele, o melhor jogador do Mundo,... é Português!
É isto que os Portugueses são, acreditam, fazem.
E se tudo estava ou não nas mãos de Deus, não sei mas sei que a alma Lusa é assim e acredita quando quer e a seguir realiza.
Fomos massacrados? Não. Provámos que merecíamos ganhar.
E num repente os golos de França não entravam e ainda que de massacre em massacre com um árbitro completamente incompetente, Portugal mostrou que é feito de traços genéticos que são de muitos povos, muitos e um só...
Não importa! Não importa nada porque a nossa bandeira espalhou-se ontem pelo Mundo, por vários cantos do Mundo....
Que temos a dizer desta força que ninguém pode parar?
Que vamos fazer com ela?

 

 

 

 

escrito no papiro por ACCB às 16:43
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Sexta-feira, 8 de Julho de 2016

Portugal/França

Quem eram eles quem eram eles quem eram eles ?!!!???
Junot
Soult
Massena!

 

 

Que é que nos queremos?!?!
Ganhar-lhes mais uma vez!!!

 

13600007_794197800679800_111016166734816681_n.jpg

 

escrito no papiro por ACCB às 17:01
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Domingo, 13 de Março de 2016

Dois homens à beira rio

 

11046596_600838600015722_1011598196905883161_n.jpg

 

 

 

-Tens espaço? Espaço, espaço, tempo, atenção....silêncio?
-Silêncio.....................
-Podes ou não podes ouvir?

-Eu sei lá se tenho espaço! Não estou para aqui calado? À espera que aconteça ou se faça dia? Diz ,... senta-te e diz ou diz de pé que também pode ser e sempre o espaço é menor.

-O que eu quero é que me respondas se tens espaço, se tenho tempo, se queres ouvir.

-Ora diz, tenho um cigarro para fumar que ainda não perdi o vício. Escuto enquanto fumo.

-Ora não pode ser. Ou escutas ou fumas que se fumas o espaço é do cigarro e da fumarada que fazes com ele.

-Queres ver que agora não posso fumar?!

-Bem eu só quero saber se tens espaço

Fez-lhe o gesto com a mão. A do cigarro que a outra estava descansada em cima dos joelhos dobrados até ao queixo. A noite estava fria e o som do rio ficara para trás na maré enquanto descia. Agora ficava lá ao fundo e ía jurar que os peixes tinham abalado todos em mar chão.

Sentou-se o amigo e com ele o silêncio enorme da noite que nem a maré cortava.

Continuou o cigarro, iria durar até que o espaço existisse . Percebeu que era só espaço para estar, que era só para escutar a presença, que nada ía sair dali.
Mas de repente a voz do amigo cortou a noite.

-Estou sem sono e acho que não vou dormir mais. Perde-se o tempo na almofada. Se estivesse muito frio ainda me deitava e adormecia enrolado.Mas assim,... com este ar de Primavera não me dá para dormir.Ando atrasado na vida. Tenho de viver já ou esqueço-me. Sabes? A gente cresce e envelhece-nos o corpo. depois começamos a confrontar-nos com aquilo com que os outros já se confrontam Um dia destes é a morte. Tu não tens medo de morrer? Não achas que perdes muito tempo a dormir?

Acendeu a ponta do cigarro sem o olhar e engoliu o mundo. Olha agora aquela hora de não pensar em nada vem falar-lhe da morte. Não lhe respondeu e aguardou mais uma saraivada de dúvidas.

-Ando cá a pensar que tenho muitos livros para ler ainda e umas tantas viagens para fazer. Não tenho tempo de dormir. Isto não dá com nada passar os dias a trabalhar que nem um inútil como se fosse resolver todos os males do Mundo. Vou mas é aprender o que ainda não aprendi e viver que se faz tarde. Comprar umas viagens com tudo incluído e fazer da noite dia. Não quero saber de mais nada que tenho o fim da Vida para dormir e já se faz tarde. Passei a vida a trabalhar para ser e não tenho nem sou. Não durmo mais. Tenho muita Vida para viver.

Enroulou-se no que ouvira. Fumou o cigarro até a beata ficar no topo. Viver,... não dormir,.. ir por aí como os peixes tinham ido com a maré vazia...pelo rio abaixo. lançou o resto do cigarro ainda acesso projectando-o com o polegar. O risco de fogo mergulhou no Tejo e então perguntou ao amigo olhando o infinito.
- Tens espaço?

 

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 17:28
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Sábado, 14 de Novembro de 2015

Paris En Colère

 

 

 

 


Que l'on touche à la liberté
et paris se met en colère
et paris commence à gronder
et le lendemain, c'est la guerre.
paris se réveille
et il ouvre ses prisons
paris a la fièvre :
il la soigne à sa façon.
il faut voir les pavés sauter
quand paris se met en colère
faut les voir, ces fusils rouillés
qui clignent de l'oeil aux fenêtres
sur les barricades
qui jaillissent dans les rues
chacun sa grenade
son couteau ou ses mains nues.

la vie, la mort ne comptent plus
on a gagné on a perdu
mais on pourra se présenter là-haut
une fleur au chapeau.
on veut être libres
a n'importe quel prix
on veut vivre, vivre, vivre
vivre libre à paris.

attention, ça va toujours loin
quand paris se met en colère
quand paris sonne le tocsin
Ça s'entend au bout de la terre
et le monde tremble
quand paris est en danger
et le monde chante
quand paris s'est libéré.
c'est la fête à la liberté
et paris n'est plus en colère
et paris peut aller danser
il a retrouvé la lumière.
après la tempête
après la peur et le froid
paris est en fête
et paris pleure de joie.

(Merci à Eric pour cettes paroles)

 

escrito no papiro por ACCB às 17:54
link do post | Escreva no Papiro | ver papiros (1) | juntar aos escribas
Sexta-feira, 13 de Novembro de 2015

Paris Je T'aime

paris-title-card.png

 





Não durmo
Estou a ver um documentário na RTP1 - SOS Terra.
Como é possível destruir ainda onde tudo já está destruído?
Só há crianças, velhos, mulheres assustadas, homens armados que armam os filhos para uma luta desigual...Fome, ...snipers...
Gritos,... Feridos... Mortos...
Onde é?
Na Síria ...Allepo
Uma mulher procura o filho nos escombros....não resta nada....
Nada está inteiro...nem as ruas, nem as casas...só escombros ....São os Insurgentes...
Aviões bombardeiam civis, desorganizados armados e sem estratégia ...
Não entendo...
Continuo a não entender
Talvez eu não queira entender.
.......

 Dia 14.11.2015 - 4 da manhã

___________________________________
Não hei-de mencionar o nome deles
Reivindiquem o que quiserem
Eu não lhes darei visibilidade
Uma noite curta
Que o dia amanheça com luz
Que Deus, seja ele o que for, tenha tempo para este pedaço de Universo
Que se compadeça do yin e do yang e os equilibre
Que os seres humanos acordem (ou adormeçam), menos humanos e mais perto dos pedacinhos de estrelas de que dizem somos feitos
Onde está o nosso lado universal ? O de todos e de cada um?....
Quem somos ... O que somos?


 dia 13.11.2015 - Atentados em Paris 150 mortos 

 

escrito no papiro por ACCB às 22:56
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Sábado, 7 de Novembro de 2015

El embrujo de la guitarra española

escrito no papiro por ACCB às 01:23
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Terça-feira, 27 de Outubro de 2015

A Hora de ser livre

Abandono
Abandono

noilton

Nunca a Vida lhe fora tão morosa, tão desinteressante, tão trabalhosa. Havia luz lá fora mas ele morava no esquecimento, na espera dos dias que lhe pareciam longos,nas noites que queria eternas.

Em menino tinham-lhe dito que o Futuro era grande e nele viviam todos os desejos que continha no seu peito, todos os sonhos do Mundo. Tinha levado a vida sempre na busca dessa realização que não era senão conhecer o Mundo que nem imaginava e ser chefe da sua aldeia, o mais velho e mais respeitado dos seus.

Mas não, a vida passara-lhe e acenara-lhe um adeus que tinha pressa e outros seres para iludir. Nem a mulher que fora sua já tinha consigo. Levara-a uma época de chuvas pelo rio abaixo quando tentava impedir que as cabras que criaram com tanto mimo morressem na corrente.

Nada lhe ficara. Nem os filhos que tinham partido para uma guerra que não era a deles, um engano de homens que eram, eles sim, chefes.

Entreabriu a janela feita com madeira e sem preciosismo de vidro. Havia sol ou uma luz qualquer que diminuía a da candeia que queimava todos os dias o tempo, lentamente...

Não sabia as horas, nem os dias, nem já os anos que tinha. O corpo ficara-lhe na cama onde uma colcha antiga permanecia com aparência de intacta mas tão inerte quanto ele. Era uma luz que não era do sol só o braço erguido tinha movimento e vida. Já não fechou a janela e sentiu o calor da espera levar-lhe o último fôlego.

Nascera, existira. Estava na hora de ser livre.

ACCB

escrito no papiro por ACCB às 00:16
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Segunda-feira, 26 de Outubro de 2015

O outro lado da rua

Tem gotinhas a correr na rua. Avizinham-se frias e apressadas. Não admira é de noite e a esta hora, mesmo com a mudança da hora e principalmente por causa dela, as meninas não andam na rua em passo de passeio.

 


Gosto quando chove porque me sinto protegida...É aqui que a prosa tolhe as mãos... e os dedos.. e os olhos no teclado.
Pela vidraça não há vivalma na rua mas há. O Mundo não é este espaço daqui ali ao outro lado da rua. Há ruas sem calçada e sem estrada, enlameadas, friorentas e tristes onde dorme gente que fugiu à guerra.


Daqui para ali, o outro lado da rua, há uma cortina de nevoeiro que os dedos da chuva não conseguem afastar. Encosto a cabeça ao vidro.... O Mundo é tão grande, tem tantos espaços vazios, tem tanta gente a morrer e a nascer a esta hora, tem tanta criança com fome e outras a dormir com frio... se é que se dorme à chuva e com medo.


O meu mundo é tão pequeno, tem gotinhas a correr na rua que não vencem a cortina de nevoeiro. Vou dormir porque o meu Mundo é tão pequeno que gosto de ouvir a chuva porque estou protegida.... e protejo-me das crianças que dormem com fome e com frio e com medo em ruas sem calçada e sem casa...


Merecerei eu ouvir a chuva?

 

ACCB

201411121618_chuvaforte.jpg

 

escrito no papiro por ACCB às 00:31
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas
Domingo, 25 de Outubro de 2015

Tarkovsky

 

andrei-tarkovsky-nostalghia-1983.jpg

Tarkovsky

 

p>Não gosto de dias escuros, são assim como fotos a preto e branco com retoques de sépia mas de imagens colhidas em locais frios e húmidos com gente triste dentro. Triste de fome, de falta de vida, triste de só, sem trabalho, sem dinheiro, sem comida,... sem vida,... como os livros de Emile Zola ou os Miseráveis de Victor Hugo.

Não gosto de dias escuros... fazem-me lembrar os quartos dos amantes onde de tristeza não se abriram as janelas... Não que se guarde dos olhos do dia o amor ou a paixão, antes se esconde o frio de uma cama vazia, já feita e que não se desfez e todo o sol preso do lado de fora que nem as frestas das janelas de tinta estalada deixam entrar.

São como uma foto de Tarkovsky... Têm tudo dentro e, no entanto, se olharmos cai-nos a tristeza em cima. Arrepia-nos a alma e deixa-nos pensativos a ver se percebemos porque não se deixa entrar o Sol. Esmaga-nos o peito... até os ombros dos homens não têm Sol...

Não gosto de dias escuros, chuvosos, lentos peganhentos, que se arrastam pelas paredes, pelos campos... como um cão que permanece ao pé do dono e não entende se ele já está morto se apenas desistiu de se mover.

Não gosto.... e gosto.... Olho o ar em volta como se houvesse uma história por contar em cada neblina, em cada som envolto em nevoeiro, em cada nuvem que teima em pendurar-se dentro de mim como um morcego sonolento...

Nos dias escuros há paredes bafientas e janelas de tinta estalada, há homens de ombros caídos e sinto-lhes no rosto aqueles que os fizeram infelizes... e vejo-lhes os olhos que só enxergam o chão e não olham de frente... quietos, sonâmbulos, ...como uma cama vazia, já feita e que não se desfez e todo o sol preso do lado de fora que nem as frestas das janelas de tinta estalada deixam entrar.


ACCB

12063447_1130871690257034_7300450450113299753_n.jp

Tarkovsky

 

escrito no papiro por ACCB às 00:21
link do post | Escreva no Papiro | juntar aos escribas

De Perfil

Sobre mim

Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “ A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” online

últimos papiros

Pássaros

Amigo não é nada disso

Filhos.....

Obama

A propósito de Trump

Choveu

Desiderata

8 de janeiro de 2014

Um texto que dá que pensa...

Para Fazer o Retrato de u...

Poema pouco original do m...

Poema de Jenny Londoño

Tons de escrita

Super Lua

No dia 11.11.2016

10.11.2016

"May be ...... the price ...

Não peças a quem pediu

Noite....

....contemplação....

Como é um alentejano?

Que se dane a regra e o p...

Sílaba súbita

É nos olhos....

Papéis velhos...

Papel em branco.....

. A escrever qualquer coi...

Linhas...

Chuva de lua cheia

Inércia

Adeus Meu Amigo

Esta força que ninguém po...

Portugal/França

Dois homens à beira rio

Paris En Colère

Paris Je T'aime

El embrujo de la guitarra...

A Hora de ser livre

O outro lado da rua

Tarkovsky

Bocage

Saramago - 18.6

Se partires, então, escre...

Lopetegui....Lotopegui......

Como o Sol A Pôr-se

Entrega-te ao medo e não ...

Quando a Vida Humana dá à...

Um Limão ao fim da tarde

CARTA A MEUS FILHOS

O Tempo é tão jovem e viv...

papiros em biblioteca

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Março 2016

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Outubro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outros Papiros

licensecreativecommons

Licença Creative Commons
A obra Cleopatramoon de Cleopatramoon Blogue foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em cleopatramoon.blogs.sapo.pt.

Outros Papiros

Fevereiro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
21
22
23
24
25
26
27
28

subscrever feeds